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	<description>A verdade dos flatos</description>
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		<title>A vaia é pra quem usa sutiã</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jul 2011 20:48:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O atleticano velho de guerra, quatrocentão, pode vaiar o Caetano cantando funk, o João Gilberto reclamando do microfone – mas não vaia o Galo de jeito nenhum Houve um tempo em que se dizia que vaiar o próprio time era “coisa de cruzeirense”. Dizia-se o mesmo sobre outras práticas, como ir à manicure, usar sutiã, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=157&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O atleticano velho de guerra, quatrocentão, pode vaiar o Caetano cantando funk,  o João Gilberto reclamando do microfone – mas não vaia o Galo de jeito nenhum<br />
</strong></p>
<p><a href="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/07/galo-sport-bh-tour-aniv-pedro-142.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-158" title="Galo Sport BH Tour Aniv Pedro 142" src="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/07/galo-sport-bh-tour-aniv-pedro-142.jpg?w=460&#038;h=345" alt="" width="460" height="345" /></a></p>
<p>Houve um tempo em que se dizia que vaiar o próprio time era “coisa de cruzeirense”. Dizia-se o mesmo sobre outras práticas, como ir à manicure, usar sutiã, brincar de Barbie, passar batom. Apenas no time do Cruzeiro parecia natural haver um guarda-metas chamado Wanderléa. Quando os atleticanos recorreram ao Reino Animal para dar nome à torcida celeste (bicharada), os cruzeirenses deram o troco na mesma moeda (cachorrada).</p>
<p>Com exceção do Bolsonaro, os seres humanos evoluem – e hoje, graças a qualquer um menos a Deus e às religiões, é cada dia mais raro o atleticano (ou o corintiano) referir-se ao cruzeirense (ou são-paulino) como se ele fosse a mulher do bicho. Essa brincadeira perdeu a graça. Se não me falha a memória, o argentino Sorín foi último a ser homenageado: “Olha a cabeleira do Sorín! Será que ele é? Será que ele é? Será que ele é bossa nova? Será que ele é Maomé?”. Dava vontade de sair do estádio – pagar outro ingresso e voltar.</p>
<p>Se o atleticano teve a sapiência de abandonar seu cântico preconceituoso (a camisa rosa é nossa bandeira branca), deveria agora recuperar aquilo que esqueceu nos sofríveis anos 90: vaiar o time é coisa de cruzeirense. O atleticano de verdade não vaia o Atlético – seria como vaiar o filho pereba na escolinha de futebol. O atleticano velho de guerra, quatrocentão, pode vaiar o Caetano cantando funk,  o João Gilberto reclamando do microfone – mas não vaia o Galo. (Agora inventou de vaiar o Hino Nacional antes do jogo, naquela hora em que “a imagem do cruzeiro resplandesce”.)</p>
<p>Aos 6 anos, fins dos anos 70, eu ia para o Mineirão de Opala, com tios e primos. Ficávamos na “torcida do América”, que era do Galo se não estivesse jogando o Coelho – a porção de arquibancada atrás do gol da Lagoa, onde hoje está a Galoucura. Ali se acomodavam os mais velhos, e ninguém vaiava o Atlético. Aos 15 eu tomava o 2004 na av. Nossa Senhora do Carmo e ia me sentar na arquibancada, bem no meio do campo – com a Força Viva, a FAO, as bandeiras verticais da Galo Elite. A Charanga fungando no cangote.</p>
<p>Ninguém vaiava o Galo, e eu fui ficando naquele meio de campo, enquanto surgia a Galoucura atrás do gol. Meados dos anos 80, deu-se uma mudança: a população da parte central da arquibancada, de frente para as cabines de rádio, envelhecera – ali bate um sol danado. Os mais novos e fanáticos migraram para a curva do anel. A Galoucura, que não para de cantar, foi ficando maior que a Força Viva.</p>
<p>O problema é que na meiúca do campo restou uma população de corneteiros agourentos, uns caras a reclamar de tudo, a falar as piores coisas sobre nossos piores jogadores, a culpar todos menos o juiz – e a vaiar. São nervosos e ansiosos, como se tivessem sido paridos pelo Bernardinho. Estão no jogo para ganhar. São uns conteiners sem alça. Ao lado deles você pode não ter uma noite agradável de quarta-feira. Por isso a cada jogo eu ando mais meio metro em direção à Galoucura. Naquele pedaço de arquibancada precisa instalar uma UPP – mas, pelo menos ali, vaiar o Galo ainda é coisa de cruzeirense.</p>
<p><em>Publicado originalmente no <strong>Estado de Minas</strong>, 16/07/2011</em></p>
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		<title>Sai de mim, Cramulhão</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jul 2011 04:21:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O que teria o atleticano cometido em outros tempos? Um genocídio? O holocausto? Teria o atleticano perseguido os cristãos na Roma Antiga? O maior problema do Atlético não está no gol nem no ataque. A culpa não é do Dorival. O problema do Galo é a falta do Mineirão. O Atlético sem a Massa é [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=151&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O que teria o atleticano cometido em outros tempos? Um genocídio? O holocausto? Teria o atleticano perseguido os cristãos na Roma Antiga?</strong></p>
<p><a href="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/07/torcedor.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-153" title="Torcedor" src="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/07/torcedor.jpg?w=259&#038;h=168" alt="" width="259" height="168" /></a></p>
<p>O maior problema do Atlético não está no gol nem no ataque. A culpa não é do Dorival. O problema do Galo é a falta do Mineirão. O Atlético sem a Massa é petista sem língua presa, Mick Jagger sem Keith Richards – alguma coisa não vai. Nessa Arena do Jacaré você pode gritar que ninguém te ouve. É um caso a ser estudado pela física. Você grita GALOOOO e o parente que foi com você no jogo pergunta: “Você disse alguma coisa? Achei que tivesse escutado sua voz”. Na Arena do Jacaré, parece que alguém apertou o “Mute”.</p>
<p>É tarefa complicada explicar a Massa a flamenguistas, corintianos, e até cruzeirenses. Para esse pessoal, o torcedor do Atlético constitui um mistério: como é possível tamanha devoção? Eu tenho uma tese. Uma tese que nasce da verificação empírica de que o atleticano está desconfiado de Deus. Ele pode ter feito a primeira comunhão, a crisma – mas tem se perguntado quantas estrelas amarelas teria, caso de fato Deus existisse.</p>
<p>O atleticano, no entanto, é um cético incomum: não acredita em estatística. Passou a adolescência escutando: “Calma, filho, é estatístico, uma hora vai”. Ou, já na vida adulta: “O futebol é cíclico, rapaz”. Fizemos 14 semifinais de Campeonatos Brasileiros – que matemática pode explicar um único título? Em 1977, fomos vice-campeões – invictos. Teríamos ganhado seis vezes se os campeonatos tivessem sido sempre de pontos corridos. Não eram. E agora que são, melhor seria se não fossem.</p>
<p>Desconfiado de Deus e da ciência, o atleticano acredita no Diabo – o Tinhoso, o Coisa-Ruim, o Capiroto. Acredita na Cabeça de Burro enterrada na Vila Olímpica e, depois, transplantada para Vespasiano. O torcedor do Galo acredita em vidas passadas – e que lá se fez, aqui se paga. O que teria o atleticano cometido em outros tempos? Um genocídio? O holocausto? Teria o atleticano perseguido os cristãos na Roma Antiga? Que pacto fizemos outrora com o Cramulhão? Que dívida estaremos nós pagando, além do meio bilhão que devemos a Deus e o mundo?</p>
<p>O Grão Tinhoso nos apontou o dedo e disse: “Vocês não serão apenas atleticanos. Vocês serão cada dia mais atleticanos” – eis o mistério da fé. Nos anos 80, eu chorava apenas na derrota final do Campeonato Brasileiro. Mais tarde, comecei a chorar quando perdia um jogo qualquer. Desde a campanha da Série B, choro com vitórias comuns. Choro com o hino. E, recentemente, com notícias do caderno de Esportes.</p>
<p>Senti ter desembuchado quando revelei ao meu amigo Daniel o desejo de ser velado com a bandeira do Atlético. Ninguém gosta de falar dessas coisas. Mas, com o progressivo aumento da minha atleticanidade, comecei a enxergar a morte de forma diferente: com a bandeira, não era tão mau. A propósito, aceitei o desafio desta coluna para deixar aqui registrado o desejo de que as minhas cinzas sejam jogadas na Cidade do Galo – e assim conseguir uma prévia autorização do Alexandre Kalil. Senão, já tenho um plano B: é botar tudo num Kinder Ovo e meter uma bica por cima do muro.</p>
<p><em>Publicado originalmente no <strong>Estado de Minas</strong>, 09/07/2011</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/fredmelopaiva.wordpress.com/151/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/fredmelopaiva.wordpress.com/151/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/fredmelopaiva.wordpress.com/151/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/fredmelopaiva.wordpress.com/151/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/fredmelopaiva.wordpress.com/151/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/fredmelopaiva.wordpress.com/151/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/fredmelopaiva.wordpress.com/151/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/fredmelopaiva.wordpress.com/151/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/fredmelopaiva.wordpress.com/151/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/fredmelopaiva.wordpress.com/151/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/fredmelopaiva.wordpress.com/151/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/fredmelopaiva.wordpress.com/151/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/fredmelopaiva.wordpress.com/151/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/fredmelopaiva.wordpress.com/151/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=151&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Viagem ao polo sem norte</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Jun 2011 20:52:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<description><![CDATA[Enviado especial à Copa Ouro de Polo desvenda outro esporte: o levantamento de Chivas com Veuve Cliquot. Enquanto o meu pessoal marcha na avenida Paulista pela liberdade e pela maconha, digo, pamonha, troto entre homens de sapatênis e óculos Carrera de acetato branco, mulheres lindas e translúcidas, de bumbuns espetacularmente bem ajambrados e botas de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=145&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Enviado especial à Copa Ouro de Polo desvenda outro esporte: o levantamento de Chivas com Veuve Cliquot.<br />
</strong></p>
<p><a href="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/06/polo.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-146" title="Polo" src="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/06/polo.jpg?w=204&#038;h=247" alt="" width="204" height="247" /></a></p>
<p>Enquanto o meu pessoal marcha na avenida Paulista pela liberdade e pela maconha, digo, pamonha, troto entre homens de sapatênis e óculos Carrera de acetato branco, mulheres lindas e translúcidas, de bumbuns espetacularmente bem ajambrados e botas de couro de jacaré. Minha pessoa jurídica, profissão repórter, vaga absorto pelo Clube de Polo São José, em Indaiatuba, a 90 km da Paulista, onde se dará a grande final da Copa Ouro 2011. Embora a credencial de que disponho informe minhas coordenadas – “S 23°00’69 min. W 47°11’98 min.” –, encontro-me deslocado, punindo a mim mesmo por ter descartado meus sapatênis e optado pelos infanto-juvenis Mad Rats quadriculados em branco e preto. Tendo errado no pisante, tenho em meus calcanhares a assessora de imprensa disposta a me apresentar presidentes, diretores, altos executivos, além de meus próprios colegas da Caras, da Quem, da IstoÉ Gente. Sentindo-me deprimido, vou refrescar a alma no stand da Veuve Cliquot. No meio do caminho, porém, sou apanhado por um copo de Chivas. A cavalo dado não se olham os dentes.</p>
<p>No Clube de Polo São José há dois grandes campos com duas traves que, presumo, sejam os gols. A grama, muito baixa, em nada se assemelha à braquiária dos estádios de futebol. Atrás de uma das metas levantam-se dois conjuntos de stands, entremeados por outros menores, onde o público se concentra. Há um bar da “cerveja feita à mão” Baden Baden, circundado por decks sobre os quais se dispõem lânguidas espreguiçadeiras. No stand da Veuve Cliquot, dois casais sorvem generosas taças de champanhe enquanto avaliam “o risco de queimar na largada”. No espaço ao lado, garçons e garrafas de Chivas aguardam alguém que se anime, além da minha pessoa. Em frente, a Lerosa Investimentos tem umas frases grafadas em suas paredes: “Já pensou em fazer seu planejamento sucessório?”. Sinceramente? Ainda não pensei em quem confiar minhas dívidas. Pelo gramado espalham-se seis carros da Audi. Um R8 vermelho está à venda por R$ 696.500. Um A8 preto custa R$ 661.315 – curioso o detalhe dos R$ 15. Nesse quesito só perde para um RS5, avaliado em R$ 443.291. Se eu te der R$ 443.300, pode me voltar o troco em chicletes?</p>
<p>Ao lado de um A7 Sportback 3.0 TFSi bege Impala, 343 pilas e um vale-transporte, está o técnico Emerson Leão, a abrilhantar a fauna local com sua juba branca. Rivaliza em fama apenas com o apresentador Otávio Mesquita, que acaba de chegar, provocando frenesi entre jornalistas e fotógrafos (que, agraciados pelo benefício da dúvida, podem ter pensado tratar-se de Otávio Frias Filho e Ruy Mesquita). Instado a acompanhar a imprensa em sua gloriosa missão de registrar os flatos, quer dizer, os fatos, ergo-me do balcão onde sorvia umas Baden Badens, já esquecido da vida. Agora flaino sobre a relva, sentindo-me nos campos da Escócia (talvez porque um novo refil do velho Chivas me tenha sido ofertado com tamanha finesse que fui incapaz de recusar). Flaino por aí, a constatar que vamos ter casa cheia. Há mulheres de chapéus e homens de docksides. Há senhores trajados numa estranha moda que remete ao século 18, com blazers de golas grandes e botões prateados, uns óculos de aros perfeitamente redondos e dourados, uns bigodes do Santos Dummont. Os homens de meia-idade usam gumex. Os jovens adultos têm pescoços avantajados e troncos grandiloquentes – são animais completamente distintos da ascendente classe C que serve o uísque e a champanhe. Suas mulheres, ave Maria, são umas gostosas. Não há entre os meninos nenhum cabelo do Neymar.</p>
<p>Tentava sem sucesso esvaziar umas infindáveis taças de Veuve Cliquot, e cometia minhas anotações acerca dos dotes físicos e indumentários do nosso vértice piramidal, quando dei-me conta de que a grande finalíssima estava em curso no campo de baixo. Abalo-me até lá, onde encontro um grupo de pessoas com uma dúvida fundamental: teria o jogo se iniciado? O que se vê ali embaixo seria o jogo, o aquecimento, a preliminar? Seria a grande final? Marcos Villas Boas, craque da fotografia, me pergunta em qual das traves se dará – ou está se dando, vai saber – o ataque, quem sabe imaginando tratar-se de jogo de uma trave só. Infelizmente não posso ajudá-lo, já que até o momento não havia localizado a bola. O público espalha-se pela lateral do campo, acomodando-se sobre blocos de feno, a questionar se a bola não teria entrado, se não teria sido “córner”, se não estaria fazendo falta um “centroavante matador”. De minha parte, torço para dois sujeitos de camisas listradas em preto e branco, como as do Atlético-MG. Mas, vendo agora em perspectiva, talvez se tratassem dos juízes.</p>
<p>De repente é gol. Gooooool, que felicidaaaade, o meu time é alegria da cidaaaade!!! Não me pergunte como foi. Parece, mas apenas parece, ter sido marcado pelo time de branco. Estranhamente, tão logo o gol é assinalado, os jogadores se retiram. O pessoal, que já mamava no Chivas tentando espantar o frio, pergunta se a peleja não teria se encerrado. Um senhor aponta o que seria o placar eletrônico: “Está 3 a 1”, exclama, como a descobrir a fórmula da Coca-Cola. Presumo que cada gol valha três para o time que marcou e um para o adversário, visto que um único tento tinha sido registrado até aquela hora. Aproveito o intervalo para me abastecer de Chivas, que ninguém é de ferro. Quando retorno, o que acredito ser – ou ter sido – a grande final acaba de se encerrar. O derrotado sou eu.</p>
<p>Volto ao “networking” dos stands, dos Chivas, das Veuve Cliquots e das Baden Badens. Lá encontro o Jeremias, nome fictício mas presença constante e real, que passara a tarde me servindo o velho cachorro engarrafado. Numa aferição empírica, posso afirmar que 50% dos presentes não tinham certeza a respeito da realização ou não da grande final – sequer davam notícia de que houvera um jogo de polo, seja ele qual fosse. Ali se encontravam para fazer contatos, sondagens, prospecções – “networking”, como deseja a organização do evento. Jeremias, o bom, não sabe o que é networking. Para ele, que está fazendo inglês no Yázigi, networking pode ser “o trabalho da Net” na instalação de TVs a cabo. Faz sentido.</p>
<p>O que não faz o menor sentido é o alarido vindo novamente do campo de baixo. Mas, meu Deus, a peleja não havia se encerrado?, questiono o meu mais recente amigo, o Pimentel (fictício mas real), cujas agruras matrimoniais tinham me sido relatadas com detalhes pornográficos. Pimentel, jovem empresário do ramo da mineração, prontifica-se a garimpar informações. Fico a observar sua figura esguia, de sapatênis e echarpe, a deslocar-se pela relva. Lá de longe, gesticula sem parcimônia: “A grande final! A grande final!”. Parto em direção a ele, carregando comigo o meu Chivas e o Chivas do Pimentel. Sou capturado, porém, por uma aspa reveladora: “Morreu o credor, morreu a dívida”. Disperso-me. Sou tragado logo adiante por uma discussão a respeito de Cuba e da geopolítica internacional, protagonizada por dois pais de família que fumam aqueles Cohibas do Churchill. Eles gostam do Fidel. Quando finalmente alcanço o gramado, não há mais jogo – se é que de fato houve. O Pimentel tinha se mandado. Resta-me um bloco de feno e dois copos de Chivas. Já é alguma coisa.</p>
<p><em>Publicado originalmente na revista <strong>RG</strong>, 07/2011</em></p>
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		<title>O Antônio Houaiss do jazz</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jun 2011 19:11:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
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		<category><![CDATA[daniel daibem]]></category>
		<category><![CDATA[hammond grooves]]></category>
		<category><![CDATA[jazz]]></category>
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		<description><![CDATA[Professor do &#8216;idioma&#8217;, Daniel Daibem e seu Hammond Grooves fazem o melhor da MPB – a Música Paulistana de Bar O Daniel não ia perder aquele espetáculo de jeito nenhum. Por isso decidiu adiantar as refeições: tomou de tarde o café da manhã, almoçou quando já era de noite – dessa forma não corria o [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=137&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Professor do &#8216;idioma&#8217;, Daniel Daibem e seu Hammond Grooves fazem o melhor da MPB – a Música Paulistana de Bar</strong></p>
<p><strong></strong><a href="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/06/daibem-2.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-140" title="Daibem 2" src="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/06/daibem-2.jpg?w=312&#038;h=234" alt="" width="312" height="234" /></a></p>
<p>O Daniel não ia perder aquele espetáculo de jeito nenhum. Por isso decidiu adiantar as refeições: tomou de tarde o café da manhã, almoçou quando já era de noite – dessa forma não corria o risco de sentir fome quando o show já tivesse começado. Por via das dúvidas, ainda acomodou nos bolsos umas barras de cereais e umas garrafinhas de água de coco. Estava pronto para a guerra quando pisou o gramado do Pacaembu, às 19h10. Calculou: tinha 1h50 para empreender uma travessia épica da retaguarda à vanguarda, e não convinha arrastar nenhuma mala. Por isso desfez-se dos amigos e embrenhou-se na multidão, vencendo cada metro a passo de cágado. No dia 27 de novembro de 2009, às 21h, apenas quatro pessoas separavam o Daniel do palco à sua frente. Quando o AC/DC começou a tocar, às 21h05, ele chorou igual menino.</p>
<p>Corta.</p>
<p>Estamos no dia 4 de abril de 2011, no Bourbon Street, casa de shows de São Paulo. Aos 38 anos, Daniel Henrique Lombardi Daibem veste um terno apertadinho. Seu cabelo liso já não comparece uniforme sobre a carcaça craniana. A franja de fios escassos e nenhum suingue desce pela testa grande. É um magrelão de dedos longos e voz de radialista. Só não se pode dizer que está sobre o palco porque toda segunda-feira, no projeto Na Roda, o palco desce para o chão (e as mesas sobem para o palco). Guitarrista do “organ trio” Hammond Grooves, representa o que há de melhor na MPB, a Música Paulistana de Bar (não é boteco, é bar, com distinção e categoria). O fã número 5 do AC/DC sugere que se faça silêncio. “O jazz é um tipo de música que pede isso”, explica, “porque ela se faz do improviso”.</p>
<p>Silêncio.</p>
<p>Daniel Daibem é um craque no “idioma do jazz”. Para aqueles que gostam de boa música e vivem no trânsito encalacrado de São Paulo, é figurinha carimbada do dial. Ou pelo menos foi. Durante os últimos sete anos, justamente no rush do fim da tarde, apresentou o melhor programa de música da rádio brasileira, o Sala dos Professores, na despudorada opinião deste escriba. Dos estúdios da Rádio Eldorado, Daniel inventou de decupar os temas do jazz, explicando com minúcia de cientista e discurso de docente o que vinham a ser os grooves, as improvisações, os breaks, a forma sincopada. Fazia ir e voltar a música, para que o ouvinte pudesse compreendê-la. Por fim, deixava rolar, presenteando o paulistano engarrafado, esse pobre diabo, com um momento de paz interior – aquela que se instala no interior do carro, enquanto lá fora a cidade parece enfartar por causa do bloqueio de suas artérias. Pois bem, a Eldorado acaba de transformar-se em Estadão ESPN, dedicada a notícias e futebol. Sua antiga programação migrou para a Eldorado Brasil 3000, rádio educativa cujas restrições desagradaram o Daniel. Que saiu do ar.</p>
<p>Um minuto de silêncio.</p>
<p>Até que chegasse ao refinamento de pedir licença para que a música pudesse começar, Daniel Daibem cumpriu uma barulhenta trajetória. Nascido em Bauru, interior de São Paulo, é descendente de italianos mas ruim de ascendências. Não sabe de que parte da Itália veio os Milanesi, mal tem informações sobre os Daibem – que ele já encontrou, grafado com N, na Finlândia. Sua mãe, pedagoga, fez conservatório de piano. Isso, no entanto, nada tem a ver com a opção de Daniel pelo jazz. “O que ensinaram a essas mulheres no piano”, diz, “não passa de datilografia”. O que não impede a dona Ana de mandar “um maravilhoso Tico Tico no Fubá”.</p>
<p>O pai, Isaias, é um professor de história forjado no “socialismo cristão”. É um político (Daniel pede para acrescentar a adversativa: “Mas é honesto”). Foi fundador do PT em Bauru e hoje é assessor de gabinete do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB). O ex-presidente Lula e o veterano Plínio de Arruda Sampaio, ex-petista e ex-candidato, foram hóspedes frequentes na casa do “companheiro Isaias”. Eram outros tempos, em que o Daniel lembra do pai ser repreendido porque a dona Ana comprara umas muçarelas para receber o famoso metalúrgico. “Vai ter queijo, Isaias???”, espantou-se um camarada. “Mas que burguesia é essa?!”, torceu o nariz.</p>
<p>Daniel é o mais velho dos cinco filhos. Morou em Bauru até os 19 anos, mas sua relação com São Paulo data dos 6 meses de vida, quando teve de vir à capital tratar um glaucoma (que acabou por comprometer definitivamente a visão de seu olho esquerdo). Mais tarde, São Paulo foi se tornando onipresente. Numa ocasião, era um amigo que vinha lhe falar sobre os encantos da cidade, onde se podia ver “o Fábio Junior passando de moto”. Noutra, tinha notícia de que “os caras do Chips, o seriado, tinham pousado no aeroporto de Congonhas”. Na adolescência, dava aquela brochada ao ver chegar em Bauru carros com placa de São Paulo: “Vão catar as nossas minas”, vaticinava. Ao levar o amplificador da guitarra para o conserto, ouvia: “Olha, vai levar trinta dias para ficar pronto, você sabe como é, a peça tem de vir de São Paulo”. São Paulo, São Paulo, São Paulo – o Daniel começou a achar que era mais fácil mudar-se para lá.</p>
<p>Bauru sempre foi uma cidade roqueira. Quando o Daniel era adolescente, abrigava hippies, punks e metaleiros. Daniel enquadrava-se na última tribo, tocando guitarra numa banda de trash metal (o estilo do Sepultura) chamada (não por acaso) Necrofobia. Não tinha cabelo grande porque, para dona Ana, o ombro era o limite. Aos 17 anos, estagiário do Banco do Brasil, ganhava R$ 1.500 por mês. Gastava tudo com disco e camiseta de metal. Tinha uma pasta só com fotos do AC/DC, que considera até hoje “uma banda de blues com letras de malandrão”. Letras estas que só foi compreender direito aos 27, quando um amigo lhe presenteou com os prints da poesia completa de Bon Scott e dos irmãos Malcolm e Angus Young. “Descobri então que eles eram o Nelson Cavaquinho do heavy metal.”</p>
<p>Já em São Paulo, com o cabelo na cintura, passou no vestibular de Rádio e TV na Fundação Armando Álvares Penteado, a Faap. Foi nos corredores da faculdade que viu o anúncio da 89 FM: “Se você gosta de rock, venha trabalhar com a gente”. Foi. Seu chefe era Fábio Massari, o VJ da MTV. Não acreditou quando recebeu Ozzy Osbourne para uma entrevista. Considerou-o “um gentleman”. A relação com o heavy metal, em especial com o “fraseado de blues” do AC/DC, levou Daniel a conhecer Chuck Berry. Por causa de Chuck Berry, interessou-se pelo soul instrumental de Booker T. &amp; the M.G.’s. Que por sua vez o levaria a Jimmy Smith, um dos criadores do soul jazz e o mais notável tocador do órgão eletro-mecânico Hammond, construído por Laurens Hammond em 1934 para servir de alternativa econômica aos órgãos de tubos das igrejas – mais tarde contrabandeado para o jazz, o blues e o rock’n’roll.</p>
<p>Quando chegou no Jimmy Smith, Daniel percebeu que não conseguia compreender seus acordes. Foi bater, então, na porta da renomada escola Groove, do carioca Leyve Miranda – uma espécie de Antunes Filho da música. Lá só se matricula quem pode ter uma frequência diária. E, a exemplo das relações entre atores e o famoso diretor de teatro, não é todo o mundo que aguenta o Leyvão. “Ele vai acabar com teu ego”, avisa Daniel, que chegou à escola com dinheiro apenas para um semestre e acabou ficando por oito anos. “Como o Karatê Kid”, ajudava em trabalhos de manutenção do espaço. “Varria as salas exercitando o andamento”, diz, completando a explicação com uma onomatopeia, marca de seu trabalho na Eldorado e Na Roda: “Tchi, tchi, tchi&#8230;” – uma vassoura com ritmo.</p>
<p>Corta.</p>
<p>Daniel está no Bourbon Street, onde chegou de ônibus (vendeu seu Chevette em 1998). Acaba de pedir silêncio. Toda primeira segunda-feira do mês, o Na Roda traz Hammond Grooves em parceria com alguém (nas demais, apenas os convidados comparecem, ciceroneados por Daniel Daibem). Às quartas, o “organ trio” migra, solo, para o bar do Terraço Itália (onde este escriba viu um riff de Black Sabbath penetrar um tema de jazz). Naquele 4 de abril, a Hammond Groove recebe o saxofonista Leo Gandelman. À direita de Daibem, o cabeludo e testudo Daniel Latorre prepara-se para operar o Hammond, que também faz as vezes do contrabaixo ao ser tocado com os pés. Latorre é dono de três desses instrumentos, que costuma alugar para Jon Lord, do Deep Purple, quando está no país – um orgulho para ele, roqueiro que é. À sua frente, Wagner Vasconcelos, o batera, já descalçou seus sapatos. Ele só toca de meia.</p>
<p>O Na Roda descende da Sala dos Professores – origina-se, na verdade, da única noite do mês em que o programa acontecia ao vivo, com o patrocínio de uma grande marca de uísque. Ainda conserva o didatismo do professor Daibem, ainda que “professores”, ensina ele, “são os convidados e não eu”. Entre uma música e outra, vai destrinchando aquilo que chama de “idioma”: “O pai de Jimmy Smith era sapateador, e o sapateado nada mais é do que o próprio jazz. Aquilo que os caras fazem com os pés, são na verdade os grooves, as palavras do jazz”, elabora, para emendar na sequência suas imprescindíveis onomatopeias: “Pá, pá, pá, turum, cum, pá, pá, tum, pá, pá, cum, turum, cum, pá, pá&#8230; No sax, forom, fom, fom, fom, fom&#8230; Na bateria, pá, pá, pá, pará, pá, prá, pá&#8230; E no piano, pã, pã, pã, pã, pã, pã&#8230;”. Para Daniel Daibem, “Jimmy Smith passou o sapateado do pai para o órgão Hammond, assim como George Benson o reproduziu na guitarra”.</p>
<p>Entendi.</p>
<p>“Jody Grind”, “Funktastik”, “River, Stay Away from My Door”. Assim começa Hammond Grooves e Leo Gandelman, inteiramente instrumental, não fosse pelo balbuciar de Daniel Daibem – como o famoso saxofonista, ele parece precisar da boca para achar a sonoridade ideal de sua guitarra. Interrompe, explica sobre a estranha função de se colocar “letra” sobre música instrumental, dá exemplos de outros músicos que usam o mesmo recurso. Cita um sujeito que para tocar Tom Jobim inventava frases em inglês. Cita “O Pato”, de João Gilberto. Segue em frente. E, num crescendo, o som às vezes parece ganhar um peso inesperado. Como se baixasse de repente um Ozzy Osbourne. Um Jon Lord. Um Angus Young.</p>
<p><em>Publicado originalmente na revista <strong>Eurobike</strong>, 06/2011</em></p>
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		<title>Tiro no pé, cabeça de dinossauro, espírito de porco</title>
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		<pubDate>Tue, 03 May 2011 15:30:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
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		<description><![CDATA[John Galliano, Mel Gibson e Charlie Sheen são diferentes de Oscar Wilde e Kiki de Montparnasse – seus escândalos só nos fazem recordar nossas piores facetas Entre todos os signos bélicos de todos os tempos e lugares, da Califórnia de Schwarzenegger à Líbia de Kadaffi, da China de Mao Tsé-tung à Cuba de Fidel, nenhum [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=20&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>John Galliano, Mel Gibson e Charlie Sheen são diferentes de Oscar Wilde e Kiki de Montparnasse – seus escândalos só nos fazem recordar nossas piores facetas</strong></p>
<p><strong><a href="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/04/kiki.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-21" title="Kiki" src="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/04/kiki.jpg?w=196&#038;h=257" alt="" width="196" height="257" /></a><br />
</strong></p>
<p>Entre todos os signos bélicos de todos os tempos e lugares, da Califórnia de Schwarzenegger à Líbia de Kadaffi, da China de Mao Tsé-tung à Cuba de Fidel, nenhum chega aos pés do Tiro no Pé – que por sua distinção deve ser grafado com maiúsculas. Tiro no Pé é um clássico capaz de deixar no chinelo, por exemplo, a Bala na Agulha. Ou o famoso Três Oitão, recentemente aposentado pela Polícia de São Paulo com obituários de página inteira. Nem todo o mundo tem Bala na Agulha ou manuseou o Três Oitão – mas não há ser humano que já não tenha dado um Tiro no Pé.</p>
<p>John Galliano foi o último, se desconsiderarmos a massa pedestre que a cada segundo comete o genocídio de sua parte mais baixa – e sem falar também no deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), cuja base de sustentação já virou queijo suíço, e não se sabe o que é preciso mais para ele cair. Aquela noite, no Marais, Galliano era o Clint Eastwood na trilogia dos dólares de Sérgio Leone – o cavaleiro solitário que bebe num canto do saloon, impassível, o rosto sem expressão, o gesto sem desperdício, o copo na sua frente. A diferença é que Galliano era o próprio cavalo, e o cavaleiro é que deve ter ficado amarrado na porta do bar.</p>
<p>Pois o equestre estilista, sentindo-se de repente açoitado por um grupo de mulheres italianas que ocupava a mesa ao lado, deixou escorrer para a câmera a espessa baba de comedor de capim. “Eu amo Hitler”, sapateou ele, já mirando o próprio scarpin. E disparou: “Com Hitler você estaria morta, sua mãe e seus antepassados seriam todos gaseados.” Bem, com Hitler, Galliano, que é uma flor, certamente não seria tratado como tal. Mas incluiu-se fora dessa, da mesma forma que fez a Dior, ao dar baixa na sua carteira depois de quase 15 anos de serviços prestados à grife.</p>
<p>Façamos porém a nossa mea-culpa (não sem antes desarmar o gatilho do excesso de franqueza, o caminho que mais rapidamente leva a vaca para o brejo): não há sobre a Terra um único pé que tenha saído ileso durante a longa caminhada da vida. Não é um versículo de Eclesiastes. Não é o Paulo Coelho no Twitter. É a dura e bípede realidade: basta ter dois pés (ou até um), e mais dia menos dia eles serão alvejados por quem menos se espera.</p>
<p>Todos nós já produzimos provas contra nós mesmos, desdenhando o direito de não fazê-lo. Todos nós passamos rasteiras nas próprias pernas. Boicotamos os próprios projetos, atentamos contra nossos melhores casamentos, puxamos o tapete sob os nossos pés. Poderíamos ser processados por danos morais, não fôssemos vítimas e réus ao mesmo tempo. Quantas vezes não fomos, num corpo só, a Preta Gil e o Jair Bolsonaro. Quer dizer, o Bolsonaro também já é demais – digamos, mais apropriadamente, que em nosso corpinho muitas vezes habita o Lula e o FHC, a Luana Piovani e o Dado Dolabella, o Palocci e o Guido Mantega.</p>
<p>Ainda assim, com a sempre honrosa exceção do nobre Bolsonaro, não consta que seja a coisa mais comum do mundo, para efeitos do Tiro no Pé, a exaltação nazista da raça ou da etnia. Mas, curiosamente, o antissemitismo confesso tem provocado a recente desgraça de algumas das celebridades de mais alto coturno. Além de John Galliano, os atores Charlie Sheen e Mel Gibson teriam feito melhor negócio se tivessem guardado segredo de suas opiniões sobre os judeus. Como não nasceram em Minas Gerais, não são obrigados a saber que “quem fala demais dá bom dia a cavalo”. O equino do ditado nada tem a ver com o Galliano.</p>
<p>A Charlie Sheen, coitado, um atenuante: trata-se de um loki total. Protagonista da série cômica de maior sucesso nos Estados Unidos, <em>Two and a Half Men</em>, Sheen era o ator mais bem pago da TV americana – ganhava cerca de US$ 1,25 milhão de dólares por episódio. Nos últimos anos, gastou parte de seus proventos com drogas e bebidas. Virou o terror da mulherada: duas de suas ex o acusaram de violência doméstica. A atriz Denise Richards, com quem tem duas filhas, separou-se de Sheen em 2005, assustada com sua obsessão pelo assassinato da mulher de O. J. Simpson – de quem, ela afirma, colecionava até as fotos da autópsia. Em entrevistas, disse que o ator era viciado em pornografia. Sheen vive hoje com a atriz pornô Bree Olson – que juntamente com a modelo e designer Natalie Kenly formam um casal de três! Vai vendo&#8230;</p>
<p>Em outubro do ano passado, o figurante de <em>Apocalypse Now</em> (1979) seguia descarregando artilharia contra o próprio pé: depois de destruir uma suíte do Plaza Hotel de Nova York, admitiu uso de cocaína e álcool. Foi hospitalizado e liberado. Em 27 de janeiro, voltou a ser internado, o que fez a rede CBS suspender <em>Two and a Half Men</em>. Dia 24 do mês seguinte, deu entrevista no rádio atacando Chuck Lorre, o criador da série. Quatro dias depois, falando a um canal de TV, cobrou aumento de 50% no salário. Foi demitido em 7 de março. Desde então só se refere a Lorre através de seu nome em hebraico, o que é visto como uma maneira preconceituosa de frisar sua origem judaica.</p>
<p>Mel Gibson é menos pancadão: “apenas” entorta o caneco, bate na mulher e bota a culpa nos judeus – perto de Sheen, é um santo. Em julho de 2006, foi preso por dirigir bêbado e em alta velocidade. Culpa de quem? Dos judeus, claro, contra os quais bradou seus impropérios. “Agi como uma pessoa completamente fora de controle quando fui detido”, tentou limpar a barra, “e disse coisas infames, que não são verdadeiras”.</p>
<p>Em março deste ano, o protagonista de <em>Máquina Mortífera</em> (1987) foi condenado a três anos de liberdade condicional por agredir a ex-namorada Oksana Grigorieva, estilista russa com quem tem uma filha. Uma das peças do processo eram gravações com insultos raciais supostamente lançados por Gibson ao telefone. O ator terá de prestar 16 horas de serviços comunitários e assistir a palestras sobre violência doméstica durante 52 semanas.</p>
<p>No passado, gente famosa como o escritor Oscar Wilde ou a musa da Paris dos anos 20 Kiki de Montparnasse também foi vitimada pelo Tiro no Pé. Homossexual, Wilde passou dois anos na cadeia condenado a trabalhos forçados por “cometer atos imorais com diversos rapazes”. Kiki, companheira do fotógrafo e pintor Man Ray, deu para todo o mundo, bebeu e cheirou o que não devia, sofrendo todo tipo de preconceito. Mas as atitudes de ambos ajudaram a emancipar gays e mulheres. John Galliano, Charlie Sheen e Mel Gibson são a antítese disso – enquanto mandam o pipoco no próprio pé, apenas reafirmam nossa cabeça de dinossauro e nosso espírito de porco. Pé na bunda deles!</p>
<p><em>Publicado originalmente na revista <strong>Elle</strong>, 05/2011</em></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/fredmelopaiva.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/fredmelopaiva.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/fredmelopaiva.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/fredmelopaiva.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/fredmelopaiva.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/fredmelopaiva.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/fredmelopaiva.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/fredmelopaiva.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/fredmelopaiva.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/fredmelopaiva.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/fredmelopaiva.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/fredmelopaiva.wordpress.com/20/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/fredmelopaiva.wordpress.com/20/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/fredmelopaiva.wordpress.com/20/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=20&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Putariazinhas</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 23:11:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[fred melo paiva]]></category>
		<category><![CDATA[gloss]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[HUMMMMM&#8230; Pés, costas e partes insuspeitadas Mulheres se preocupam com o bumbum e as coxas, que de fato são importantes. Mas partes menos voluptuosas e por isso insuspeitadas são deixadas à parte, com graves consequências para a libido masculina. Um pezinho delicado, por exemplo, é meio caminho andado. Verdade que isso depende menos da pedicure [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=94&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p><strong>HUMMMMM&#8230;<br />
</strong><strong></strong></p>
<p><strong></strong><strong>Pés, costas e partes insuspeitadas</strong></p>
<p>Mulheres se preocupam com o bumbum e as coxas, que de fato são importantes. Mas partes menos voluptuosas e por isso insuspeitadas são deixadas à parte, com graves consequências para a libido masculina. Um pezinho delicado, por exemplo, é meio caminho andado. Verdade que isso depende menos da pedicure do que de questões congênitas, ou seja, ou você tem ou não tem – e não há plástica que dê jeito numa lancha mal alinhavada. Mãos também caem como luva neste quesito. Além das costas. Uma “costas” deliciosa é o convite mais eficaz para uma noite de conchinha. Um amigo já teve ímpetos, nessa hora, de fazer elogios ao que considero um órgão sexual: “O melhor de você, amor, são suas costas”. Calou-se, receoso de que depois ela fosse falar dele – pelas costas.</p>
<p><strong></strong><strong>Saltos e batatas</strong></p>
<p>Se homens gostam de pés, eles amam os saltos, capazes de revelar, além dos pezinhos, as batatas da perna – com reflexo, aí já é coisa da nossa cabeça, em coxas e bumbuns ainda mais durinhos (e costas, hummmm, eretas). Acontece, porém, que o homem é péssimo comprador de salto. Erra desde a altura até a loja. O último que comprei será levado ao sapateiro, para ver se é possível arrancar um toco e diminuí-lo. Constrangida por não usar o nosso presente, a mulher abandona todo e qualquer saltinho, substituindo-os por aquelas sandálias de romano em livro do Asterix. Melhor não arriscar.</p>
<p><strong></strong><strong>Ela depiladinha</strong></p>
<p>É difícil encontrar no mundo uma coisa cujos nomes sejam tão inapropriados como no caso da&#8230; bem, buceta. Senão vejamos: buceta é um xingamento; xoxota é malicioso demais; xana ou xaninha não dá; perereca é infantil; vagina é ginecológico. De forma que não há como falar sobre o assunto sem desconforto. Mas vamos lá: ao longo da história, xoxotas, que a gente achava ser impossível melhorar, mudaram seus cortes de cabelo e a cada dia foram se tornando mais atraentes. Se pensarmos em Cláudia Ohana, com seu penteado metaleiro, vamos ver que a xana virou outra pessoa. Por ora, pererecas skinheads estão imbatíveis.</p>
<p><strong></strong><strong>Uma masturbadinha básica pra gente assistir</strong></p>
<p>Não são apenas os fetiches variados capazes de enlouquecer essas pobres criaturas testosterônicas. Uma masturbadinha básica, pra gente assistir, pode ser mais eficiente. E não se corre o risco de errar a mão, o que acontece eventualmente com chicotes, sexo no meio da rua e fios terra para bunda, quer dizer, banda larga. A masturbadinha básica pra gente assistir enquadra-se na categoria das coisas simples sonegadas ao homem, visto que tocar umazinha é mais comum em carreira solo do que em banda. Por isso esse mistério que nos tira do sério. Por isso a popularidade do sexo virtual – esse buraco de fechadura com webcam.</p>
<p><strong></strong><strong>Uma gata cheirando a cigarro e whisky</strong></p>
<p>Homem também quer casar e ter filhos. Também quer se apaixonar. E quer acordar sem ressaca no domingo de manhã. Mas, poxa, sabe como é, homem, na falta de melhor termo, gosta de uma putariazinha (que, explica-se, nada tem a ver com prostituição, mas com o ímpeto etílico-hedonista que nos persegue desde a Grécia Antiga). Na curva descendente da balada, o melhor dos mundos é uma gata cheirando a cigarro e whisky, a revogação da Lei Seca e um hotel de quarta categoria. Já no dia seguinte&#8230; Bom, aqui se faz, aqui se paga.</p>
<p><strong></strong><strong>Uma conversa franca com a sua coelhinha</strong></p>
<p>Pessoas falam durante a transa. Americanas, por exemplo, dizem “oh, god, yeah, yeah”. Mas tem gente que vai mais fundo no papo, além de fazer o mesmo em outras partes – e conduzem verdadeiras e reveladoras entrevistas. A brincadeira se dá nos moldes das “respostas cretinas para perguntas idiotas” – no caso, “respostas sacanas para perguntas desavergonhadas”. O segredo é não poupar a parceira de suas curiosidades mais tesudas. E você, parceira, confessar o inconfessável. Ao fim da trepantina, ninguém fala mais nisso. Funciona, além de economizar na psicanálise.</p>
<p><strong></strong><strong>Uma noite no swing, uma manhã de tantra</strong></p>
<p>Experimentar variadas formas de sacanagem é mais velho do que dar de frente. Então melhor agora, que o swing está na moda e as massagens tântricas também. São modalidades opostas, mas que levam ao mesmo objetivo: uma gozada fenomenal, com interessantes reflexões sobre o sexo nos dias atuais. Levar você, gatinha, no swing, não significa oferecê-la ao primeiro cafajeste. O swing da moda tem quase nada de troca de casais. É como o tantra: uma deliciosa exploração dos limites físicos e morais. Uau!</p>
<p><strong></strong><strong>O sabor da inominável<br />
</strong></p>
<p>Se os homens pudessem eleger a melhor fragrância do universo, o prêmio iria para o Dermacyd, aquele sabonete líquido que faz a higiene íntima da mulherada. Que maravilha aquilo! É o próprio cheiro da xoxota! Aliás, depois do Dermacyd, não se sabe mais que cheiro original tem a dita cuja. Nem faz falta. Porque basta uma cafungada no Dermacyd que toda mulher deixa no box do banheiro para você ser transportado para um mundo de sonhos, fantasias e, claro, xoxotas. Se eu fosse uma mulher em busca de aventura, daria um jeito de borrifar um Dermacyd no pescocinho.</p>
<p><strong></strong><strong>Ejaculação feminina, se existir</strong></p>
<p>Se ela existe, a gente quer ver. Se há dúvida, investiguemos por conta própria. Se é um mito, melhor irmos cheios de dedos. A recente fissura dos manos por este cataclismo deve ser celebrada pelas minas: antes do apreço pelo jato em si, o que a rapaziada gosta mesmo é de ver a mulherada gozando – aquela coisa que lateja, os pezinhos que se contorcem. Ah, os pezinhos&#8230; Hummmm&#8230;</p>
<p><strong>AAAAARGH&#8230;<br />
</strong></p>
<p><strong>A gata que vira leoa</strong></p>
<p>Urros que apavoram os vizinhos, arranhões subcutâneos. Eject.</p>
<p><strong>Cavalgada no rodeio</strong></p>
<p>Não é apenas o banco do Silvio Santos que quebra.</p>
<p><strong>Pés horríveis</strong></p>
<p>Acontece. Diga que este é o seu fetiche, e só transe de botas.</p>
<p><strong>Mulheres que choram</strong></p>
<p>E, em geral, vomitam. Um encontro, e caput.</p>
<p><em>Publicado originalmente na revista <strong>Gloss</strong>, 04/2011</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/fredmelopaiva.wordpress.com/94/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/fredmelopaiva.wordpress.com/94/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/fredmelopaiva.wordpress.com/94/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/fredmelopaiva.wordpress.com/94/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/fredmelopaiva.wordpress.com/94/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/fredmelopaiva.wordpress.com/94/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/fredmelopaiva.wordpress.com/94/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/fredmelopaiva.wordpress.com/94/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/fredmelopaiva.wordpress.com/94/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/fredmelopaiva.wordpress.com/94/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/fredmelopaiva.wordpress.com/94/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/fredmelopaiva.wordpress.com/94/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/fredmelopaiva.wordpress.com/94/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/fredmelopaiva.wordpress.com/94/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=94&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Soul beautiful</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Mar 2011 20:22:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Camila Pitanga]]></category>
		<category><![CDATA[ensaio]]></category>
		<category><![CDATA[fred melo paiva]]></category>
		<category><![CDATA[moda]]></category>
		<category><![CDATA[perfil]]></category>
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		<description><![CDATA[Camila já tinha as bochechas coradas por alguma coisa que eu, analfabeto nessa parte, diria ser uma boa lufada de pó de arroz. Sem os bobs, vai ficando aquela Pitanga que a gente conhece Encontro Camila Pitanga espichada lânguida e preguiçosamente na cadeira, a admirar-se no espelho. É uma cadeira comum, que não cabe uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=60&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Camila já tinha as bochechas coradas por alguma coisa que eu, analfabeto nessa parte, diria ser uma boa lufada de pó de arroz. Sem os bobs, vai ficando aquela Pitanga que a gente conhece</strong></p>
<p><a href="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/05/marcelo-sguassabia103_bobs.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-61" title="marcelo-sguassabia103_bobs" src="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/05/marcelo-sguassabia103_bobs-e1304454951965.jpg?w=187&#038;h=231" alt="" width="187" height="231" /></a></p>
<p>Encontro Camila Pitanga espichada lânguida e preguiçosamente na cadeira, a admirar-se no espelho. É uma cadeira comum, que não cabe uma Camila Pitanga inteira. De forma que ela está com as pernas pro ar e os pés sobre o balcão, descalços. Eu, que tenho fetiche por pés assim como Quentin Tarantino e o outrora repórter-rastejante Xico Sá, tento aferir alguma coisa sobre o sustentáculo daquela carreira. Infelizmente não é um pé delicado, a que se pode chamar de pezinho. Àquela distância desconfio de um ligeiro joanete. Poderia dar uma nota 6, quatro pontos acima da Alessandra Ambrósio, por exemplo. Mas imagino o que muita gente não faria para chegar aos pés da Camila Pitanga. Anoto no bloquinho: 7.</p>
<p>Vou me distraindo com essa questão rasteira enquanto Camila se distrai com o iPhone, vendo fotos e vídeos da Antônia. Camila tem 33 anos. Antônia vai fazer 3 – mas já sabe cantar “Oh, Terezinha&#8230; Oh, Terezinha&#8230; É um barato o Cassino do Chacrinha!”. Está no iPhone. Foi a Camila que ensinou, ao passar com a filha repetidas vezes pela estátua do Velho Guerreiro nas proximidades da Globo, no Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro. Em compensação, Antônia tem ensinado à mãe sobre a complexidade das relações humanas. “Educar te faz pensar”, diz Camila, “faz rever várias coisas”.</p>
<p>Camila vê e revê o espelho à sua frente. Está descalça e de bobs. Bobs cor de rosa. Estamos no camarim do estúdio de Bob Wolfenson, alugado para a produção do ensaio. De bobs no Bob, penso eu bobamente. “Pode passar a argamassa”, sugere ela ao maquiador Daniel Hernandez. “É que depois do laser para correção da pele apareceram umas manchas de sol no meu rosto.” Apuro o olhar para ver se identifico alguma coisa. Concluo que assim como os bobs as manchas devem ser coisa da cabeça de Camila Pitanga.</p>
<p>A maquiagem precede a hora da estrela, sugere a fabricação da diva, a transformação da pessoa física em pessoa jurídica. Daqueles bobs há de emergir um cabelo de fazer inveja, daquela “argamassa” não se verá mais do que bochechas naturalmente douradas. Nesse limiar entre realidade e fantasia, dão-se as conversas mais despretensiosas – o papo furado que vale dez entrevistas com o gravador na mão.</p>
<p>“Sabia que você tem um twitter falso?”, pergunta Fabiana Oliva, a assessora. “Jura? E o que publicam nesse twitter?”, interessa-se Camila. “Dão notícias da sua vida como se fosse você.” Camila permanece impassível, como se os bobs não permitissem ficar de cabelo em pé. “E não tem jeito de explodir isso?”, sugere, estilo Kadafi. Fabiana explica os trâmites que já percorreu para tentar a “explosão” da conta. Ainda não teve sucesso – nem com Camila Pitanga nem com Fábio Assunção, que embora falte na novela é outro a sobrar no site de relacionamentos. “Melhor é fazer como Zé Simão”, diz Fabiana, referindo-se ao colunista da <em>Folha de S.Paulo</em>. “O seu twitter é falso mas ele finge que é verdadeiro.” Macaco velho.</p>
<p>Enquanto se tece essa conversa fiada, puxam-se uns olhos de gata na Camila Pitanga, instalam-se uns cílios postiços. Camila vai ganhando ares de Amy Winehouse, coitada. Mas isso é bom: vamos acabar com esse negócio de que apenas a Winevodka, esse contêiner sem alça, pode trazer para os novos anos 10 o deslumbre feminino dos velhos anos 20. O papel de diva moderna cai muito, mas muuuuito melhor na nossa Camila Pitanga. Em cujo vozeirão, inclusive, eu apostaria todos os meus caraminguás. Olha, Camila, lembre-se disso: fui eu que dei a ideia.</p>
<p>O Daniel está com a mão na massa, e Camila, falando no telefone (sim, isso é possível). Tipo aquelas conversas que a gente ouve por aí, no restaurante, no elevador. “É você que está cuidando das coisas do meu irmão, Julita?&#8230; Ahan&#8230; Sei, sei&#8230; Ahan&#8230; O mesmo preço ou deu um advance?&#8230; Ahan&#8230; Sei, sei&#8230;”. O Daniel põe uma Bethânia no tocador de iPod. “Mas peraí, cê vai conseguir negociar um advance, né?&#8230; É que eu sou a irmã mais velha&#8230; Sei, sei&#8230; Ainda não deu pra falar de valores&#8230; Ahan&#8230;”. Ficamos todos de voyeur, quer dizer, de escuteur. Eu já imaginava grandes negócios, contratos milionários (fui eu que dei a idéia!). E rolava Bethânia.</p>
<p>A essa altura Camila já tinha as bochechas coradas por alguma coisa que eu, analfabeto nessa parte, diria ser uma boa lufada de pó de arroz. Agora sem os bobs, surge uma outra Camila Pitanga – e vai-se embora aquela deusa tipo “nóis lá em casa”, de bobs e chinelo de dedo. Uma chapinha – pelo menos o que eu julgo ser uma – rola ao som da Bethânia. E a Camila vai ficando aquela Pitanga que a gente conhece.</p>
<p>“Negue o seu amor, o seu carinho, diga que você já me esqueceu, pise machucando com jeitinho esse coração que ainda é seu, diga que o meu pranto é covardia, mas não esqueça que você foi minha um dia&#8230;”. Parecia surreal: eu, num pequeno quartinho com a Camila Pitanga, ouvindo “Negue” – uma pena que fosse a versão da Bethânia, cujas letras a Camila sabia de cor. Menos essa, que ela pulou. Talvez, como eu, preferisse o clássico de Adelino Moreira na voz do Nelson Gonçalves. Ou do Marcelo Nova, com o Camisa de Vênus.</p>
<p>Isso, no entanto, não vinha ao caso. Porque finalmente o Daniel tinha encerrado o seu trabalho e a Camila era a Camila Pitanga – dourada, magrinha, gostosa, alta, negra, branca, forte, fina, despachada, elegante et coeteras e et coeteras. “Que transformação”, digo, ao pé de seu ouvido, no lugar de recitar o Adelino Moreira. “Não é? Ressuscita-me!”, brinca, linda de morrer.</p>
<p>E lá vai a Camila, e lá vem ela, troca de vestido, põe sapato, tira sapato, troca de novo, joga um casaquinho, enrola-se num pano (que não deve se chamar exatamente “pano”). Tem nove looks para fotografar! Vai e volta, protagonista de um desfile só dela. Mexe e remexe dentro do carro – carro não, um Audi A6 3.0 T, um tesão. Planeja com o Daniel, parceiro antigo, um editorial tocando vários instrumentos. Agora está rolando o Lenny Kravitz e ela ensaia um air guitar. Embora, nessa modalidade, prefira o movimento do baixo – um air bass.</p>
<p>Lá vai, lá vem, e de repente surge ela com o grande tocador de iPod sobre um dos ombros, tipo rapper americano. Está usando um decotadíssimo Reinaldo Lourenço. Tem uma pinta bem ali, onde o V do decote se prolonga perigosamente. “Tipo Taís Araújo, Camila Pitanga, uma mistura, confesso, fiquei de perna bamba” – me lembrou os Racionais. Vou falar com o Mano Brown. Ele precisa produzir a Camila. Fui eu que dei a ideia.</p>
<p><em>Publicado originalmente na revista <strong>RG</strong>, 03/2011</em></p>
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		<title>Na SPFW, eu funguei o cangote da A</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Feb 2011 19:07:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<description><![CDATA[Alçado à fila D, mais tarde recuo uma casa até a E. Por fim, em trajetória que remete a Lula, o filho do Brasil, vou parar na B Na primeira vez em que eu estive numa São Paulo Fashion Week, fi-lo porque acompanhava a modelo Alessandra Ambrósio em dia de desfile – tarefa que resultaria [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=35&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Alçado à fila D, mais tarde recuo uma casa até a E. Por fim, em trajetória que remete a Lula, o filho do Brasil, vou parar na B</strong></p>
<p><a href="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/05/logo-spfw-20112.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-43" title="logo spfw 2011" src="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/05/logo-spfw-20112-e1304450314340.jpg?w=231&#038;h=250" alt="" width="231" height="250" /></a></p>
<p>Na primeira vez em que eu estive numa São Paulo Fashion Week, fi-lo porque acompanhava a modelo Alessandra Ambrósio em dia de desfile – tarefa que resultaria depois numa reportagem para <em>O Estado de S. Paulo</em>. A matéria ia bem, quando, desavisadamente, Alessandra surgiu descalça do provador. Estávamos só eu e ela, meu coraçãozinho já pulsando de uma alegria tola e adolescente, quando se deu a revelação: seu pé era horrorível. Havia sobre os dedos um conjunto de calosidades, cuja responsabilidade ela tratou de imputar às sapatilhas dos tempos de bailarina. Mas os próprios dedos, longos e desorientados, não havia dr. Scholl que desse jeito. Fui obrigado a ser honesto com o leitor – e revelar o desagradável sustentáculo daquela promissora carreira.</p>
<p>Talvez por isso minha pessoa jurídica, de resto desconhecida, tenha merecido um convite para a fila G na última edição da SPFW. Só há uma coisa mais desprestigiosa do que assistir a um desfile desde a fila G – é vê-lo na H, a última. Sete lances abaixo, a Primeira Fila – com maiúsculas – compõe-se de uma sequência de bancos ordinários. Em cada um cabem quatro VIPs, não importando suas circunferências. O glamour exige ginástica, o que significa que, não havendo melhor arranjo, a turma se aperta nos 82 lugares, 41 de cada lado da passarela. É com bons olhos que se deve constatar a alta densidade demográfica da fila A – prova da ascensão, senão da classe C, ao menos da fila C. “A Primeira Fila, e até a segunda, está agora inflada pela imprensa virtual”, vaticina uma experimentada jornalista de moda, autoclassificando-se “editora fila B”.</p>
<p>De meu posto desavançado, na G, posso ver o trio que tem cadeira cativa na A desde antes dos blogs, talvez até de Gutenberg: Constanza Pascolato, Regina Guerreiro, Glorinha Kalil. Um pouco mais adiante, Lilian Pacce, que ganhou assento nos anos 80, e Erika Palomino, da geração 90. Daqui posso ver a Isabella Fiorentino. A Hortência, metida a fórceps num vestidinho. Há muitas e provocativas pernas na fila A, abandonadas à própria sorte, dado o notável déficit de testosterona presente no salão.</p>
<p>A Primeira Fila é uma instituição da moda. “Em qualquer lugar do mundo, um bom desfile tem uma boa fila A, mescla de grandes editores de moda e celebridades pagas para aparecer”, me disse Constanza, que diante de minha surpresa já parecia farejar de onde eu vinha. No exterior, Constanza fica “lá pela fila 14”. Faço a conta nos dedos e a encontro na fila N, coitada, bem pra lá do ponto G. “Mas se for Armani e Dolce &amp; Gabbana fico na 2 ou 3”, desconversa.</p>
<p>No desfile seguinte sou alçado à fila D (caso único em que se é alçado para baixo). Mais tarde recuo uma casa até a E. Por fim, numa trajetória épica que remete a Lula, o filho do Brasil, sou acomodado na fila B – fungando no cangote da A, desejoso de dar um pé em algum traseiro e ocupar a vanguarda de forma revolucionária, como fez outrora a presidente Dilma. Me ocorre roubar um assento à frente, motivo principal dos barracos que já se deram naquela área de risco. Se quiser roubar um lugar na A, ensina uma editora de moda da C, é prudente que a vítima seja anônima ou quase isso. Foi essa a técnica, ela garante, usada nos primórdios por uma blogueira de estatura importante. Serah?</p>
<p>Resignado, penso no que me disse Constanza: “Ninguém quer ser jogado para a fila B”.</p>
<p><em> <em>Publicado originalmente na revista<strong> Elle</strong>, 02/2011</em> </em></p>
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		<title>O Galaxão do presidente</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Jan 2011 22:43:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No calor, a pintura desbotou, plásticos racharam, o motor engripou. JK, até por jazer no mesmo endereço, devia revirar-se diante do descaso com os restos mortais de seu Galaxie 74 A relação entre o presidente Juscelino Kubitschek e suas invejáveis carangas é infelizmente mais conhecida por ocasião de sua morte, no finalzinho da tarde de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=86&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>No calor, a pintura desbotou, plásticos racharam, o motor engripou. JK, até por jazer no mesmo endereço, devia revirar-se diante do descaso com os restos mortais de seu Galaxie 74<br />
</strong></p>
<p><a href="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/05/glaxie-jk-3.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-87" title="Glaxie JK 3" src="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/05/glaxie-jk-3.jpg?w=446&#038;h=210" alt="" width="446" height="210" /></a></p>
<p>A relação entre o presidente Juscelino Kubitschek e suas invejáveis carangas é infelizmente mais conhecida por ocasião de sua morte, no finalzinho da tarde de 22 de agosto de 1976, esbagaçado no banco traseiro de um Opalão 70 com capota de vinil. A bem da verdade histórica, o Opala cinza metálico placa NW-9326, do Rio de Janeiro, já não pertencia mais a JK. Dois anos antes, tinha sido doado por ele ao seu motorista de longa data, Geraldo Ribeiro, ex-chefe da garagem do Palácio do Catete. O Geraldo estava na pilota quando perdeu o controle do Opala, famoso por sair de traseira (de bunda, como se diz – ou de nádegas, o que seria mais adequado em respeito ao lendário modelo). Na Via Dutra ainda em pista única, altura do município de Resende (RJ), bateu de frente numa Scania Vabis que levava 30 toneladas de gesso do Ceará para São Paulo. JK, prestes a completar 74 anos, só pôde ser identificado porque levava no bolso a carteira de identidade. GR também teve morte instantânea. De seu Opala sobraram justamente as nádegas.</p>
<p>Além da teoria conspiratória sobre o próprio assassinato, do Geraldo e do Opala pela Ditadura Militar, Juscelino deixou esposa, duas filhas e&#8230; um Galaxie 500 ano 1974!!! Vinho, modelão standard mas uma beleza, está agora restaurado desde a bronzina da biela até os adesivos do radiador. “Lembro-me bem desse carro chegando à residência do dr. Juscelino, na Avenida Atlântica. Dona Sarah e eu descemos até a garagem do prédio e tivemos a oportunidade de apreciá-lo”, recorda Cirlene Ramos, antiga secretária da família e diretora cultural do Memorial JK. O Galaxão (apelido carinhoso que se pronuncia Galachão) substituiria o Opala 70, então repassado ao Geraldo. Para os amantes do velho modelo Ford de fabricação e concepção nacionais, ditadura alguma teria logrado sucesso na tentativa de assassinar o Galaxie e seus ocupantes, uma pena que tenham ido de Chevrolet. Intrigas da oposição.</p>
<p>Comprado numa concessionária do Rio (valia seis Fuscas da época), o Galaxão do presidente passou a vida nos arredores do Distrito Federal. Foi levado para Brasília, de próprio punho, por Juscelino Kubitschek. Costumava conduzi-lo do aeroporto à Fazendinha JK, em Luziânia (GO). Também servia às viagens mais longas, quando Juscelino se acomodava no banco de trás, tirava os sapatos, comia biscoitos de polvilho e repousava num travesseiro. Depois de sua morte, a barca periclitou por aí até 1981, quando foi adquirida para a inauguração do Memorial JK. Então puseram nele umas rodas de Landau 76 (um pecado) e o acomodaram numa redoma de concreto e vidro, exposto ao sol como leguminosa numa estufa (outro pecado, este cometido por Oscar Niemeyer). Por mais de 28 anos, não deram sequer uma ligadinha no Galaxão. No calor, a pintura desbotou, borrachas e plásticos racharam, o motor engripou. Juscelino, até por jazer no mesmo endereço, devia revirar-se diante do descaso com os restos mortais de seu Galaxie.</p>
<p>Ano passado, porém, a sorte começou a mudar. Tão logo o 16º Batalhão Logístico do Exército terminou a reforma de uma Mercedes preta 1961 que também pertencera a JK (o presidente e suas invejáveis carangas), assumiu a missão de ressuscitar o velho Galaxie 500. O prazo para a entrega do veículo, quatro meses, exigia um plano de metas ao estilo 50 anos em 5. Por isso convocou-se equipe suficiente para anexar o Paraguai: 55 soldados, 22 cabos, 29 sargentos, 3 tenentes, 2 capitães e 1 coronel – todos participaram de alguma maneira, ainda que ajudando a enroscar um parafuso. Se precisavam de macaco hidráulico, não perdiam tempo: levantavam o bicho no braço mesmo.</p>
<p>Entre os poucos civis, o diretor e videomaker Dino Dragone – autor do livro “Galaxie, o Grande Brasileiro” e um aficionado pelo modelo – destacava-se não apenas por seu conhecimento, capaz de apontar se determinada porca é original do carro ou se foi instalada depois. Dino, 40, é punk. Em um de seus braços, há uma tatuagem onde se lê “PUNK”. Ao lado, uma frente de Galaxie. Ele o coronel Eleazar de Moraes formavam uma dupla sui generis.</p>
<p>Quando Dino viu pela primeira vez o Galaxão presidencial, pensou: “Vai ser punk”. Sua lista de peças para o conserto não tinha fim. À medida que quase tudo ia sendo substituído, ele guardava consigo os cacarecos originais. “O cara pôs o popô aqui”, diz ele, admirado com o velho banco do motorista – que levou para casa junto com uma bagulhada danada. Hoje o Galaxão de Juscelino pode ser visto nos trinques, infelizmente na mesma estufa de antes, no Memorial JK. Ou na casa do Dino, dividido em muitas partes que, não fosse ele, teriam ido para o lixo da história.</p>
<p><em>Publicado originalmente na revista Serafina, <strong>Folha de S.Paulo</strong>, 01/2011</em></p>
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		<title>Um escritor com o pé na lama</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Jan 2011 22:22:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fred Melo Paiva</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se o Edney Silvestre se transformar de fato num grandissíssimo autor, será como o pintor extraordinário que começou a carreira vendendo tinta em casa de material de construção Edney, embora Silvestre, é um repórter que prefere sair a campo em missões, podemos dizer, menos selvagens. Gosta mesmo é de ter descoberto, no interior do Ceará, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=fredmelopaiva.wordpress.com&amp;blog=22542851&amp;post=78&amp;subd=fredmelopaiva&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Se o Edney Silvestre se transformar de fato num grandissíssimo autor, será como o pintor extraordinário que começou a carreira vendendo tinta em casa de material de construção</strong></p>
<p><a href="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/01/wolverine-marvel-huge-jackman.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-82" title="wolverine-marvel-huge-jackman" src="http://fredmelopaiva.files.wordpress.com/2011/01/wolverine-marvel-huge-jackman.jpg?w=245&#038;h=295" alt="" width="245" height="295" /></a></p>
<p>Edney, embora Silvestre, é um repórter que prefere sair a campo em missões, podemos dizer, menos selvagens. Gosta mesmo é de ter descoberto, no interior do Ceará, um professor de balé cujo ofício transforma filhos de pescadores em bailarinos. Na semana passada, tendo de subir o morro do Borel, no Rio de Janeiro, foi identificado por um menino: “Olha o Caco Barcelos!”. Ao que respondeu, contrariado: “Não, meu filho, o Caco é o de olho azul”.</p>
<p>Apesar desse seu gosto pessoal, a cobertura de abacaxis é uma das especialidades do cardápio jornalístico de Edney Silvestre, 55, na Globo desde meados dos anos 80. Vangloria-se, por exemplo, de ter sido o primeiro repórter do Brasil a chegar ao WTC em 11 de setembro de 2001. Não é um desembarque na Normandia, mas de qualquer maneira lá estava o Edney.</p>
<p>Com um pouco de boa vontade (talvez muita), seu cabelo lembra o Wolverine do cinema. Assim ele surgiu em reportagens na região serrana do Rio de Janeiro durante a cobertura da tragédia. Experiente (“eufemismo para velho”, ele diz), ficou chocado com o que viu.</p>
<p>Deu-se conta do horror ao subir numa montanha de lama e escombros, em Nova Friburgo, e perceber que “caminhava sobre dezenas de cadáveres”.</p>
<p>Pela primeira vez em vários meses, interrompeu a escrita de seu novo romance, “A Felicidade é Fácil”, que vinha ganhando pelo menos um parágrafo por dia, ainda que obrado num saguão de aeroporto. Em Nova Friburgo “não tinha como entrar no personagem”.</p>
<p>“Há coisas inimagináveis acontecendo ali, como as cenas dos pais com seus filhos mortos no colo, inchados por causa do afogamento”, relata. “Um comandante dos Bombeiros me falou, em <em>off</em>, que deve haver cerca de mil mortos somente em Nova Friburgo. No final, acho que as notícias serão ainda piores.”</p>
<p>Edney é hoje essa figura dicotômica: ao mesmo tempo em que chafurda a lama em suas reportagens, esquiva-se para redigir um paragrafinho que seja de seu novo livro, ambientado em São Paulo no início dos anos 90.</p>
<p>Está no nono capítulo, projeta pelo menos outros seis. Entrega o original à editora Record em junho e espera vê-lo nas livrarias em outubro – nas mesmíssimas datas em que lançou o sortudo “Se eu Fechar os Olhos Agora” (Record).</p>
<p>Vencedor ano passado dos Prêmios São Paulo de Literatura, categoria estreante, e Jabuti de Melhor Romance, o livro será traduzido para cinco países até 2012 – França, Alemanha, Holanda, Sérvia e Portugal. Se o Edney fechar os olhos, vai achar que está sonhando. Ainda mais depois de ter abandonado um romance em gestação e desistido de outro, recusado por um editor.</p>
<p>Tendo colocado a mão numa bufunfa considerável – R$ 200 mil pelo Prêmio São Paulo e R$ 3 mil pelo Jabuti –, tratou de reinvestir o dinheiro. Transformou um quarto de hóspedes em escritório, comprou um Macintosh do qual passou a apanhar rotineiramente, refez o assoalho de seu apartamento no Leblon.</p>
<p>Sua estreia rendeu, ainda, uma polêmica com relação ao Jabuti – que premiou como livro do ano “Leite Derramado”, de Chico Buarque, segundo colocado na categoria em que Edney saiu vencedor.</p>
<p>Edney nunca cruzou o Chico no Leblon, porque enquanto ele caminha na areia Chico prefere o calçadão. Só leu um livro dele, “Estorvo”, de 1991. Achou “confuso” – um estorvo.</p>
<p><strong>Edney, Edmond, Edmir, Edinil, Ederson e Edna</strong></p>
<p>Se o Edney Silvestre se transformar de fato num grandissíssimo escritor, será mais ou menos como aquele pintor extraordinário que começou a carreira vendendo lata de tinta numa casa de material de construção. Ou o excepcional tenor que surgiu primeiro anunciando na praia os biscoitos Globo.</p>
<p>Edney despontou para as letras como alguém cheio de dedos: no TRE de Valença (RJ), sua cidade natal, batia à máquina os títulos de eleitores. Não era bico, mas profissão – datilógrafo, a primeira a constar de sua Carteira de Trabalho.</p>
<p>De família simples, sua mãe trabalhou como tecelã e o pai tinha sido funcionário da Central do Brasil até abrir o próprio armazém, onde vendia “de víveres a tamancos”. Talvez por se chamarem Maria e Joaquim, tenham labutado bastante na hora de batizar os filhos. Saiu assim: Edney, Edmond, Edmir, Edinil, Ederson e Edna.</p>
<p>Edney aprendeu a ler na biblioteca de Valença. Começou com “Os Três Porquinhos”, partindo em seguida para Thomas Mann e Joseph Conrad. Depois de familiarizar-se com o inglês nas sessões contínuas do cinema, passou à leitura da revista <em>Time</em>. Hoje fala também um pouco de francês e, “macarronicamente”, o italiano.</p>
<p>Já no Rio de Janeiro, datilografava trabalhos escolares e fazia traduções de “livros de cowboy” – o que evoluiu para alguns títulos estrangeiros da então celebrada editora Civilização Brasileira. Terminou preso pela ditadura, confundido com o editor Ênio da Silveira – que, segundo os militares, tentava se safar sob o pseudônimo do falso tradutor Edney Silvestre.</p>
<p>Cooptado pela escrita, foi redator de publicidade, repórter de <em>O Cruzeiro</em> e <em>O Globo</em>. Mandado a Nova York como correspondente do jornal carioca, trocou o impresso pela televisão em meados dos anos 80. Dividia a redação com o estúdio improvisado onde Paulo Francis gravava seus comentários, não sem antes emitir duas dúzias de palavrões.</p>
<p>Uma vez, sua mãe ligou de Valença para elogiar: “Estava ótima a reportagem de ontem”. Edney estranhou o inesperado interesse de dona Maria pelo assunto da clonagem humana. “Não, Edney”, explicou ela, “estou falando da sua gravata, estava ótima”.</p>
<p>Sem a gravata Edney tem o pescoço grande e rosado, além de olhos ligeiramente para fora, uns cílios inclinados para baixo. Quando vai falar alguma coisa grave, ele franze a sobrancelha sobre o olho direito, ao mesmo tempo em que abre o esquerdo. Repetiu isso toda vez que falou da tragédia no Rio, sua última cobertura.</p>
<p>Na região serrana reviveu algumas de suas tragédias pessoais. Como o incêndio que destruiu o pequeno armazém do seu Joaquim no final dos anos 50. Edney foi retirado das chamas de pijama, o pai saiu de hobby, a mãe de camisola. Foi tudo o que restou do patrimônio da família.</p>
<p><em>Publicado originalmente na <strong>Folha de S.Paulo</strong>, 30/01/2011</em></p>
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