Professor do ‘idioma’, Daniel Daibem e seu Hammond Grooves fazem o melhor da MPB – a Música Paulistana de Bar
O Daniel não ia perder aquele espetáculo de jeito nenhum. Por isso decidiu adiantar as refeições: tomou de tarde o café da manhã, almoçou quando já era de noite – dessa forma não corria o risco de sentir fome quando o show já tivesse começado. Por via das dúvidas, ainda acomodou nos bolsos umas barras de cereais e umas garrafinhas de água de coco. Estava pronto para a guerra quando pisou o gramado do Pacaembu, às 19h10. Calculou: tinha 1h50 para empreender uma travessia épica da retaguarda à vanguarda, e não convinha arrastar nenhuma mala. Por isso desfez-se dos amigos e embrenhou-se na multidão, vencendo cada metro a passo de cágado. No dia 27 de novembro de 2009, às 21h, apenas quatro pessoas separavam o Daniel do palco à sua frente. Quando o AC/DC começou a tocar, às 21h05, ele chorou igual menino.
Corta.
Estamos no dia 4 de abril de 2011, no Bourbon Street, casa de shows de São Paulo. Aos 38 anos, Daniel Henrique Lombardi Daibem veste um terno apertadinho. Seu cabelo liso já não comparece uniforme sobre a carcaça craniana. A franja de fios escassos e nenhum suingue desce pela testa grande. É um magrelão de dedos longos e voz de radialista. Só não se pode dizer que está sobre o palco porque toda segunda-feira, no projeto Na Roda, o palco desce para o chão (e as mesas sobem para o palco). Guitarrista do “organ trio” Hammond Grooves, representa o que há de melhor na MPB, a Música Paulistana de Bar (não é boteco, é bar, com distinção e categoria). O fã número 5 do AC/DC sugere que se faça silêncio. “O jazz é um tipo de música que pede isso”, explica, “porque ela se faz do improviso”.
Silêncio.
Daniel Daibem é um craque no “idioma do jazz”. Para aqueles que gostam de boa música e vivem no trânsito encalacrado de São Paulo, é figurinha carimbada do dial. Ou pelo menos foi. Durante os últimos sete anos, justamente no rush do fim da tarde, apresentou o melhor programa de música da rádio brasileira, o Sala dos Professores, na despudorada opinião deste escriba. Dos estúdios da Rádio Eldorado, Daniel inventou de decupar os temas do jazz, explicando com minúcia de cientista e discurso de docente o que vinham a ser os grooves, as improvisações, os breaks, a forma sincopada. Fazia ir e voltar a música, para que o ouvinte pudesse compreendê-la. Por fim, deixava rolar, presenteando o paulistano engarrafado, esse pobre diabo, com um momento de paz interior – aquela que se instala no interior do carro, enquanto lá fora a cidade parece enfartar por causa do bloqueio de suas artérias. Pois bem, a Eldorado acaba de transformar-se em Estadão ESPN, dedicada a notícias e futebol. Sua antiga programação migrou para a Eldorado Brasil 3000, rádio educativa cujas restrições desagradaram o Daniel. Que saiu do ar.
Um minuto de silêncio.
Até que chegasse ao refinamento de pedir licença para que a música pudesse começar, Daniel Daibem cumpriu uma barulhenta trajetória. Nascido em Bauru, interior de São Paulo, é descendente de italianos mas ruim de ascendências. Não sabe de que parte da Itália veio os Milanesi, mal tem informações sobre os Daibem – que ele já encontrou, grafado com N, na Finlândia. Sua mãe, pedagoga, fez conservatório de piano. Isso, no entanto, nada tem a ver com a opção de Daniel pelo jazz. “O que ensinaram a essas mulheres no piano”, diz, “não passa de datilografia”. O que não impede a dona Ana de mandar “um maravilhoso Tico Tico no Fubá”.
O pai, Isaias, é um professor de história forjado no “socialismo cristão”. É um político (Daniel pede para acrescentar a adversativa: “Mas é honesto”). Foi fundador do PT em Bauru e hoje é assessor de gabinete do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB). O ex-presidente Lula e o veterano Plínio de Arruda Sampaio, ex-petista e ex-candidato, foram hóspedes frequentes na casa do “companheiro Isaias”. Eram outros tempos, em que o Daniel lembra do pai ser repreendido porque a dona Ana comprara umas muçarelas para receber o famoso metalúrgico. “Vai ter queijo, Isaias???”, espantou-se um camarada. “Mas que burguesia é essa?!”, torceu o nariz.
Daniel é o mais velho dos cinco filhos. Morou em Bauru até os 19 anos, mas sua relação com São Paulo data dos 6 meses de vida, quando teve de vir à capital tratar um glaucoma (que acabou por comprometer definitivamente a visão de seu olho esquerdo). Mais tarde, São Paulo foi se tornando onipresente. Numa ocasião, era um amigo que vinha lhe falar sobre os encantos da cidade, onde se podia ver “o Fábio Junior passando de moto”. Noutra, tinha notícia de que “os caras do Chips, o seriado, tinham pousado no aeroporto de Congonhas”. Na adolescência, dava aquela brochada ao ver chegar em Bauru carros com placa de São Paulo: “Vão catar as nossas minas”, vaticinava. Ao levar o amplificador da guitarra para o conserto, ouvia: “Olha, vai levar trinta dias para ficar pronto, você sabe como é, a peça tem de vir de São Paulo”. São Paulo, São Paulo, São Paulo – o Daniel começou a achar que era mais fácil mudar-se para lá.
Bauru sempre foi uma cidade roqueira. Quando o Daniel era adolescente, abrigava hippies, punks e metaleiros. Daniel enquadrava-se na última tribo, tocando guitarra numa banda de trash metal (o estilo do Sepultura) chamada (não por acaso) Necrofobia. Não tinha cabelo grande porque, para dona Ana, o ombro era o limite. Aos 17 anos, estagiário do Banco do Brasil, ganhava R$ 1.500 por mês. Gastava tudo com disco e camiseta de metal. Tinha uma pasta só com fotos do AC/DC, que considera até hoje “uma banda de blues com letras de malandrão”. Letras estas que só foi compreender direito aos 27, quando um amigo lhe presenteou com os prints da poesia completa de Bon Scott e dos irmãos Malcolm e Angus Young. “Descobri então que eles eram o Nelson Cavaquinho do heavy metal.”
Já em São Paulo, com o cabelo na cintura, passou no vestibular de Rádio e TV na Fundação Armando Álvares Penteado, a Faap. Foi nos corredores da faculdade que viu o anúncio da 89 FM: “Se você gosta de rock, venha trabalhar com a gente”. Foi. Seu chefe era Fábio Massari, o VJ da MTV. Não acreditou quando recebeu Ozzy Osbourne para uma entrevista. Considerou-o “um gentleman”. A relação com o heavy metal, em especial com o “fraseado de blues” do AC/DC, levou Daniel a conhecer Chuck Berry. Por causa de Chuck Berry, interessou-se pelo soul instrumental de Booker T. & the M.G.’s. Que por sua vez o levaria a Jimmy Smith, um dos criadores do soul jazz e o mais notável tocador do órgão eletro-mecânico Hammond, construído por Laurens Hammond em 1934 para servir de alternativa econômica aos órgãos de tubos das igrejas – mais tarde contrabandeado para o jazz, o blues e o rock’n’roll.
Quando chegou no Jimmy Smith, Daniel percebeu que não conseguia compreender seus acordes. Foi bater, então, na porta da renomada escola Groove, do carioca Leyve Miranda – uma espécie de Antunes Filho da música. Lá só se matricula quem pode ter uma frequência diária. E, a exemplo das relações entre atores e o famoso diretor de teatro, não é todo o mundo que aguenta o Leyvão. “Ele vai acabar com teu ego”, avisa Daniel, que chegou à escola com dinheiro apenas para um semestre e acabou ficando por oito anos. “Como o Karatê Kid”, ajudava em trabalhos de manutenção do espaço. “Varria as salas exercitando o andamento”, diz, completando a explicação com uma onomatopeia, marca de seu trabalho na Eldorado e Na Roda: “Tchi, tchi, tchi…” – uma vassoura com ritmo.
Corta.
Daniel está no Bourbon Street, onde chegou de ônibus (vendeu seu Chevette em 1998). Acaba de pedir silêncio. Toda primeira segunda-feira do mês, o Na Roda traz Hammond Grooves em parceria com alguém (nas demais, apenas os convidados comparecem, ciceroneados por Daniel Daibem). Às quartas, o “organ trio” migra, solo, para o bar do Terraço Itália (onde este escriba viu um riff de Black Sabbath penetrar um tema de jazz). Naquele 4 de abril, a Hammond Groove recebe o saxofonista Leo Gandelman. À direita de Daibem, o cabeludo e testudo Daniel Latorre prepara-se para operar o Hammond, que também faz as vezes do contrabaixo ao ser tocado com os pés. Latorre é dono de três desses instrumentos, que costuma alugar para Jon Lord, do Deep Purple, quando está no país – um orgulho para ele, roqueiro que é. À sua frente, Wagner Vasconcelos, o batera, já descalçou seus sapatos. Ele só toca de meia.
O Na Roda descende da Sala dos Professores – origina-se, na verdade, da única noite do mês em que o programa acontecia ao vivo, com o patrocínio de uma grande marca de uísque. Ainda conserva o didatismo do professor Daibem, ainda que “professores”, ensina ele, “são os convidados e não eu”. Entre uma música e outra, vai destrinchando aquilo que chama de “idioma”: “O pai de Jimmy Smith era sapateador, e o sapateado nada mais é do que o próprio jazz. Aquilo que os caras fazem com os pés, são na verdade os grooves, as palavras do jazz”, elabora, para emendar na sequência suas imprescindíveis onomatopeias: “Pá, pá, pá, turum, cum, pá, pá, tum, pá, pá, cum, turum, cum, pá, pá… No sax, forom, fom, fom, fom, fom… Na bateria, pá, pá, pá, pará, pá, prá, pá… E no piano, pã, pã, pã, pã, pã, pã…”. Para Daniel Daibem, “Jimmy Smith passou o sapateado do pai para o órgão Hammond, assim como George Benson o reproduziu na guitarra”.
Entendi.
“Jody Grind”, “Funktastik”, “River, Stay Away from My Door”. Assim começa Hammond Grooves e Leo Gandelman, inteiramente instrumental, não fosse pelo balbuciar de Daniel Daibem – como o famoso saxofonista, ele parece precisar da boca para achar a sonoridade ideal de sua guitarra. Interrompe, explica sobre a estranha função de se colocar “letra” sobre música instrumental, dá exemplos de outros músicos que usam o mesmo recurso. Cita um sujeito que para tocar Tom Jobim inventava frases em inglês. Cita “O Pato”, de João Gilberto. Segue em frente. E, num crescendo, o som às vezes parece ganhar um peso inesperado. Como se baixasse de repente um Ozzy Osbourne. Um Jon Lord. Um Angus Young.
Publicado originalmente na revista Eurobike, 06/2011






