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Professor do ‘idioma’, Daniel Daibem e seu Hammond Grooves fazem o melhor da MPB – a Música Paulistana de Bar

O Daniel não ia perder aquele espetáculo de jeito nenhum. Por isso decidiu adiantar as refeições: tomou de tarde o café da manhã, almoçou quando já era de noite – dessa forma não corria o risco de sentir fome quando o show já tivesse começado. Por via das dúvidas, ainda acomodou nos bolsos umas barras de cereais e umas garrafinhas de água de coco. Estava pronto para a guerra quando pisou o gramado do Pacaembu, às 19h10. Calculou: tinha 1h50 para empreender uma travessia épica da retaguarda à vanguarda, e não convinha arrastar nenhuma mala. Por isso desfez-se dos amigos e embrenhou-se na multidão, vencendo cada metro a passo de cágado. No dia 27 de novembro de 2009, às 21h, apenas quatro pessoas separavam o Daniel do palco à sua frente. Quando o AC/DC começou a tocar, às 21h05, ele chorou igual menino.

Corta.

Estamos no dia 4 de abril de 2011, no Bourbon Street, casa de shows de São Paulo. Aos 38 anos, Daniel Henrique Lombardi Daibem veste um terno apertadinho. Seu cabelo liso já não comparece uniforme sobre a carcaça craniana. A franja de fios escassos e nenhum suingue desce pela testa grande. É um magrelão de dedos longos e voz de radialista. Só não se pode dizer que está sobre o palco porque toda segunda-feira, no projeto Na Roda, o palco desce para o chão (e as mesas sobem para o palco). Guitarrista do “organ trio” Hammond Grooves, representa o que há de melhor na MPB, a Música Paulistana de Bar (não é boteco, é bar, com distinção e categoria). O fã número 5 do AC/DC sugere que se faça silêncio. “O jazz é um tipo de música que pede isso”, explica, “porque ela se faz do improviso”.

Silêncio.

Daniel Daibem é um craque no “idioma do jazz”. Para aqueles que gostam de boa música e vivem no trânsito encalacrado de São Paulo, é figurinha carimbada do dial. Ou pelo menos foi. Durante os últimos sete anos, justamente no rush do fim da tarde, apresentou o melhor programa de música da rádio brasileira, o Sala dos Professores, na despudorada opinião deste escriba. Dos estúdios da Rádio Eldorado, Daniel inventou de decupar os temas do jazz, explicando com minúcia de cientista e discurso de docente o que vinham a ser os grooves, as improvisações, os breaks, a forma sincopada. Fazia ir e voltar a música, para que o ouvinte pudesse compreendê-la. Por fim, deixava rolar, presenteando o paulistano engarrafado, esse pobre diabo, com um momento de paz interior – aquela que se instala no interior do carro, enquanto lá fora a cidade parece enfartar por causa do bloqueio de suas artérias. Pois bem, a Eldorado acaba de transformar-se em Estadão ESPN, dedicada a notícias e futebol. Sua antiga programação migrou para a Eldorado Brasil 3000, rádio educativa cujas restrições desagradaram o Daniel. Que saiu do ar.

Um minuto de silêncio.

Até que chegasse ao refinamento de pedir licença para que a música pudesse começar, Daniel Daibem cumpriu uma barulhenta trajetória. Nascido em Bauru, interior de São Paulo, é descendente de italianos mas ruim de ascendências. Não sabe de que parte da Itália veio os Milanesi, mal tem informações sobre os Daibem – que ele já encontrou, grafado com N, na Finlândia. Sua mãe, pedagoga, fez conservatório de piano. Isso, no entanto, nada tem a ver com a opção de Daniel pelo jazz. “O que ensinaram a essas mulheres no piano”, diz, “não passa de datilografia”. O que não impede a dona Ana de mandar “um maravilhoso Tico Tico no Fubá”.

O pai, Isaias, é um professor de história forjado no “socialismo cristão”. É um político (Daniel pede para acrescentar a adversativa: “Mas é honesto”). Foi fundador do PT em Bauru e hoje é assessor de gabinete do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB). O ex-presidente Lula e o veterano Plínio de Arruda Sampaio, ex-petista e ex-candidato, foram hóspedes frequentes na casa do “companheiro Isaias”. Eram outros tempos, em que o Daniel lembra do pai ser repreendido porque a dona Ana comprara umas muçarelas para receber o famoso metalúrgico. “Vai ter queijo, Isaias???”, espantou-se um camarada. “Mas que burguesia é essa?!”, torceu o nariz.

Daniel é o mais velho dos cinco filhos. Morou em Bauru até os 19 anos, mas sua relação com São Paulo data dos 6 meses de vida, quando teve de vir à capital tratar um glaucoma (que acabou por comprometer definitivamente a visão de seu olho esquerdo). Mais tarde, São Paulo foi se tornando onipresente. Numa ocasião, era um amigo que vinha lhe falar sobre os encantos da cidade, onde se podia ver “o Fábio Junior passando de moto”. Noutra, tinha notícia de que “os caras do Chips, o seriado, tinham pousado no aeroporto de Congonhas”. Na adolescência, dava aquela brochada ao ver chegar em Bauru carros com placa de São Paulo: “Vão catar as nossas minas”, vaticinava. Ao levar o amplificador da guitarra para o conserto, ouvia: “Olha, vai levar trinta dias para ficar pronto, você sabe como é, a peça tem de vir de São Paulo”. São Paulo, São Paulo, São Paulo – o Daniel começou a achar que era mais fácil mudar-se para lá.

Bauru sempre foi uma cidade roqueira. Quando o Daniel era adolescente, abrigava hippies, punks e metaleiros. Daniel enquadrava-se na última tribo, tocando guitarra numa banda de trash metal (o estilo do Sepultura) chamada (não por acaso) Necrofobia. Não tinha cabelo grande porque, para dona Ana, o ombro era o limite. Aos 17 anos, estagiário do Banco do Brasil, ganhava R$ 1.500 por mês. Gastava tudo com disco e camiseta de metal. Tinha uma pasta só com fotos do AC/DC, que considera até hoje “uma banda de blues com letras de malandrão”. Letras estas que só foi compreender direito aos 27, quando um amigo lhe presenteou com os prints da poesia completa de Bon Scott e dos irmãos Malcolm e Angus Young. “Descobri então que eles eram o Nelson Cavaquinho do heavy metal.”

Já em São Paulo, com o cabelo na cintura, passou no vestibular de Rádio e TV na Fundação Armando Álvares Penteado, a Faap. Foi nos corredores da faculdade que viu o anúncio da 89 FM: “Se você gosta de rock, venha trabalhar com a gente”. Foi. Seu chefe era Fábio Massari, o VJ da MTV. Não acreditou quando recebeu Ozzy Osbourne para uma entrevista. Considerou-o “um gentleman”. A relação com o heavy metal, em especial com o “fraseado de blues” do AC/DC, levou Daniel a conhecer Chuck Berry. Por causa de Chuck Berry, interessou-se pelo soul instrumental de Booker T. & the M.G.’s. Que por sua vez o levaria a Jimmy Smith, um dos criadores do soul jazz e o mais notável tocador do órgão eletro-mecânico Hammond, construído por Laurens Hammond em 1934 para servir de alternativa econômica aos órgãos de tubos das igrejas – mais tarde contrabandeado para o jazz, o blues e o rock’n’roll.

Quando chegou no Jimmy Smith, Daniel percebeu que não conseguia compreender seus acordes. Foi bater, então, na porta da renomada escola Groove, do carioca Leyve Miranda – uma espécie de Antunes Filho da música. Lá só se matricula quem pode ter uma frequência diária. E, a exemplo das relações entre atores e o famoso diretor de teatro, não é todo o mundo que aguenta o Leyvão. “Ele vai acabar com teu ego”, avisa Daniel, que chegou à escola com dinheiro apenas para um semestre e acabou ficando por oito anos. “Como o Karatê Kid”, ajudava em trabalhos de manutenção do espaço. “Varria as salas exercitando o andamento”, diz, completando a explicação com uma onomatopeia, marca de seu trabalho na Eldorado e Na Roda: “Tchi, tchi, tchi…” – uma vassoura com ritmo.

Corta.

Daniel está no Bourbon Street, onde chegou de ônibus (vendeu seu Chevette em 1998). Acaba de pedir silêncio. Toda primeira segunda-feira do mês, o Na Roda traz Hammond Grooves em parceria com alguém (nas demais, apenas os convidados comparecem, ciceroneados por Daniel Daibem). Às quartas, o “organ trio” migra, solo, para o bar do Terraço Itália (onde este escriba viu um riff de Black Sabbath penetrar um tema de jazz). Naquele 4 de abril, a Hammond Groove recebe o saxofonista Leo Gandelman. À direita de Daibem, o cabeludo e testudo Daniel Latorre prepara-se para operar o Hammond, que também faz as vezes do contrabaixo ao ser tocado com os pés. Latorre é dono de três desses instrumentos, que costuma alugar para Jon Lord, do Deep Purple, quando está no país – um orgulho para ele, roqueiro que é. À sua frente, Wagner Vasconcelos, o batera, já descalçou seus sapatos. Ele só toca de meia.

O Na Roda descende da Sala dos Professores – origina-se, na verdade, da única noite do mês em que o programa acontecia ao vivo, com o patrocínio de uma grande marca de uísque. Ainda conserva o didatismo do professor Daibem, ainda que “professores”, ensina ele, “são os convidados e não eu”. Entre uma música e outra, vai destrinchando aquilo que chama de “idioma”: “O pai de Jimmy Smith era sapateador, e o sapateado nada mais é do que o próprio jazz. Aquilo que os caras fazem com os pés, são na verdade os grooves, as palavras do jazz”, elabora, para emendar na sequência suas imprescindíveis onomatopeias: “Pá, pá, pá, turum, cum, pá, pá, tum, pá, pá, cum, turum, cum, pá, pá… No sax, forom, fom, fom, fom, fom… Na bateria, pá, pá, pá, pará, pá, prá, pá… E no piano, pã, pã, pã, pã, pã, pã…”. Para Daniel Daibem, “Jimmy Smith passou o sapateado do pai para o órgão Hammond, assim como George Benson o reproduziu na guitarra”.

Entendi.

“Jody Grind”, “Funktastik”, “River, Stay Away from My Door”. Assim começa Hammond Grooves e Leo Gandelman, inteiramente instrumental, não fosse pelo balbuciar de Daniel Daibem – como o famoso saxofonista, ele parece precisar da boca para achar a sonoridade ideal de sua guitarra. Interrompe, explica sobre a estranha função de se colocar “letra” sobre música instrumental, dá exemplos de outros músicos que usam o mesmo recurso. Cita um sujeito que para tocar Tom Jobim inventava frases em inglês. Cita “O Pato”, de João Gilberto. Segue em frente. E, num crescendo, o som às vezes parece ganhar um peso inesperado. Como se baixasse de repente um Ozzy Osbourne. Um Jon Lord. Um Angus Young.

Publicado originalmente na revista Eurobike, 06/2011

No calor, a pintura desbotou, plásticos racharam, o motor engripou. JK, até por jazer no mesmo endereço, devia revirar-se diante do descaso com os restos mortais de seu Galaxie 74

A relação entre o presidente Juscelino Kubitschek e suas invejáveis carangas é infelizmente mais conhecida por ocasião de sua morte, no finalzinho da tarde de 22 de agosto de 1976, esbagaçado no banco traseiro de um Opalão 70 com capota de vinil. A bem da verdade histórica, o Opala cinza metálico placa NW-9326, do Rio de Janeiro, já não pertencia mais a JK. Dois anos antes, tinha sido doado por ele ao seu motorista de longa data, Geraldo Ribeiro, ex-chefe da garagem do Palácio do Catete. O Geraldo estava na pilota quando perdeu o controle do Opala, famoso por sair de traseira (de bunda, como se diz – ou de nádegas, o que seria mais adequado em respeito ao lendário modelo). Na Via Dutra ainda em pista única, altura do município de Resende (RJ), bateu de frente numa Scania Vabis que levava 30 toneladas de gesso do Ceará para São Paulo. JK, prestes a completar 74 anos, só pôde ser identificado porque levava no bolso a carteira de identidade. GR também teve morte instantânea. De seu Opala sobraram justamente as nádegas.

Além da teoria conspiratória sobre o próprio assassinato, do Geraldo e do Opala pela Ditadura Militar, Juscelino deixou esposa, duas filhas e… um Galaxie 500 ano 1974!!! Vinho, modelão standard mas uma beleza, está agora restaurado desde a bronzina da biela até os adesivos do radiador. “Lembro-me bem desse carro chegando à residência do dr. Juscelino, na Avenida Atlântica. Dona Sarah e eu descemos até a garagem do prédio e tivemos a oportunidade de apreciá-lo”, recorda Cirlene Ramos, antiga secretária da família e diretora cultural do Memorial JK. O Galaxão (apelido carinhoso que se pronuncia Galachão) substituiria o Opala 70, então repassado ao Geraldo. Para os amantes do velho modelo Ford de fabricação e concepção nacionais, ditadura alguma teria logrado sucesso na tentativa de assassinar o Galaxie e seus ocupantes, uma pena que tenham ido de Chevrolet. Intrigas da oposição.

Comprado numa concessionária do Rio (valia seis Fuscas da época), o Galaxão do presidente passou a vida nos arredores do Distrito Federal. Foi levado para Brasília, de próprio punho, por Juscelino Kubitschek. Costumava conduzi-lo do aeroporto à Fazendinha JK, em Luziânia (GO). Também servia às viagens mais longas, quando Juscelino se acomodava no banco de trás, tirava os sapatos, comia biscoitos de polvilho e repousava num travesseiro. Depois de sua morte, a barca periclitou por aí até 1981, quando foi adquirida para a inauguração do Memorial JK. Então puseram nele umas rodas de Landau 76 (um pecado) e o acomodaram numa redoma de concreto e vidro, exposto ao sol como leguminosa numa estufa (outro pecado, este cometido por Oscar Niemeyer). Por mais de 28 anos, não deram sequer uma ligadinha no Galaxão. No calor, a pintura desbotou, borrachas e plásticos racharam, o motor engripou. Juscelino, até por jazer no mesmo endereço, devia revirar-se diante do descaso com os restos mortais de seu Galaxie.

Ano passado, porém, a sorte começou a mudar. Tão logo o 16º Batalhão Logístico do Exército terminou a reforma de uma Mercedes preta 1961 que também pertencera a JK (o presidente e suas invejáveis carangas), assumiu a missão de ressuscitar o velho Galaxie 500. O prazo para a entrega do veículo, quatro meses, exigia um plano de metas ao estilo 50 anos em 5. Por isso convocou-se equipe suficiente para anexar o Paraguai: 55 soldados, 22 cabos, 29 sargentos, 3 tenentes, 2 capitães e 1 coronel – todos participaram de alguma maneira, ainda que ajudando a enroscar um parafuso. Se precisavam de macaco hidráulico, não perdiam tempo: levantavam o bicho no braço mesmo.

Entre os poucos civis, o diretor e videomaker Dino Dragone – autor do livro “Galaxie, o Grande Brasileiro” e um aficionado pelo modelo – destacava-se não apenas por seu conhecimento, capaz de apontar se determinada porca é original do carro ou se foi instalada depois. Dino, 40, é punk. Em um de seus braços, há uma tatuagem onde se lê “PUNK”. Ao lado, uma frente de Galaxie. Ele o coronel Eleazar de Moraes formavam uma dupla sui generis.

Quando Dino viu pela primeira vez o Galaxão presidencial, pensou: “Vai ser punk”. Sua lista de peças para o conserto não tinha fim. À medida que quase tudo ia sendo substituído, ele guardava consigo os cacarecos originais. “O cara pôs o popô aqui”, diz ele, admirado com o velho banco do motorista – que levou para casa junto com uma bagulhada danada. Hoje o Galaxão de Juscelino pode ser visto nos trinques, infelizmente na mesma estufa de antes, no Memorial JK. Ou na casa do Dino, dividido em muitas partes que, não fosse ele, teriam ido para o lixo da história.

Publicado originalmente na revista Serafina, Folha de S.Paulo, 01/2011

Se o Edney Silvestre se transformar de fato num grandissíssimo autor, será como o pintor extraordinário que começou a carreira vendendo tinta em casa de material de construção

Edney, embora Silvestre, é um repórter que prefere sair a campo em missões, podemos dizer, menos selvagens. Gosta mesmo é de ter descoberto, no interior do Ceará, um professor de balé cujo ofício transforma filhos de pescadores em bailarinos. Na semana passada, tendo de subir o morro do Borel, no Rio de Janeiro, foi identificado por um menino: “Olha o Caco Barcelos!”. Ao que respondeu, contrariado: “Não, meu filho, o Caco é o de olho azul”.

Apesar desse seu gosto pessoal, a cobertura de abacaxis é uma das especialidades do cardápio jornalístico de Edney Silvestre, 55, na Globo desde meados dos anos 80. Vangloria-se, por exemplo, de ter sido o primeiro repórter do Brasil a chegar ao WTC em 11 de setembro de 2001. Não é um desembarque na Normandia, mas de qualquer maneira lá estava o Edney.

Com um pouco de boa vontade (talvez muita), seu cabelo lembra o Wolverine do cinema. Assim ele surgiu em reportagens na região serrana do Rio de Janeiro durante a cobertura da tragédia. Experiente (“eufemismo para velho”, ele diz), ficou chocado com o que viu.

Deu-se conta do horror ao subir numa montanha de lama e escombros, em Nova Friburgo, e perceber que “caminhava sobre dezenas de cadáveres”.

Pela primeira vez em vários meses, interrompeu a escrita de seu novo romance, “A Felicidade é Fácil”, que vinha ganhando pelo menos um parágrafo por dia, ainda que obrado num saguão de aeroporto. Em Nova Friburgo “não tinha como entrar no personagem”.

“Há coisas inimagináveis acontecendo ali, como as cenas dos pais com seus filhos mortos no colo, inchados por causa do afogamento”, relata. “Um comandante dos Bombeiros me falou, em off, que deve haver cerca de mil mortos somente em Nova Friburgo. No final, acho que as notícias serão ainda piores.”

Edney é hoje essa figura dicotômica: ao mesmo tempo em que chafurda a lama em suas reportagens, esquiva-se para redigir um paragrafinho que seja de seu novo livro, ambientado em São Paulo no início dos anos 90.

Está no nono capítulo, projeta pelo menos outros seis. Entrega o original à editora Record em junho e espera vê-lo nas livrarias em outubro – nas mesmíssimas datas em que lançou o sortudo “Se eu Fechar os Olhos Agora” (Record).

Vencedor ano passado dos Prêmios São Paulo de Literatura, categoria estreante, e Jabuti de Melhor Romance, o livro será traduzido para cinco países até 2012 – França, Alemanha, Holanda, Sérvia e Portugal. Se o Edney fechar os olhos, vai achar que está sonhando. Ainda mais depois de ter abandonado um romance em gestação e desistido de outro, recusado por um editor.

Tendo colocado a mão numa bufunfa considerável – R$ 200 mil pelo Prêmio São Paulo e R$ 3 mil pelo Jabuti –, tratou de reinvestir o dinheiro. Transformou um quarto de hóspedes em escritório, comprou um Macintosh do qual passou a apanhar rotineiramente, refez o assoalho de seu apartamento no Leblon.

Sua estreia rendeu, ainda, uma polêmica com relação ao Jabuti – que premiou como livro do ano “Leite Derramado”, de Chico Buarque, segundo colocado na categoria em que Edney saiu vencedor.

Edney nunca cruzou o Chico no Leblon, porque enquanto ele caminha na areia Chico prefere o calçadão. Só leu um livro dele, “Estorvo”, de 1991. Achou “confuso” – um estorvo.

Edney, Edmond, Edmir, Edinil, Ederson e Edna

Se o Edney Silvestre se transformar de fato num grandissíssimo escritor, será mais ou menos como aquele pintor extraordinário que começou a carreira vendendo lata de tinta numa casa de material de construção. Ou o excepcional tenor que surgiu primeiro anunciando na praia os biscoitos Globo.

Edney despontou para as letras como alguém cheio de dedos: no TRE de Valença (RJ), sua cidade natal, batia à máquina os títulos de eleitores. Não era bico, mas profissão – datilógrafo, a primeira a constar de sua Carteira de Trabalho.

De família simples, sua mãe trabalhou como tecelã e o pai tinha sido funcionário da Central do Brasil até abrir o próprio armazém, onde vendia “de víveres a tamancos”. Talvez por se chamarem Maria e Joaquim, tenham labutado bastante na hora de batizar os filhos. Saiu assim: Edney, Edmond, Edmir, Edinil, Ederson e Edna.

Edney aprendeu a ler na biblioteca de Valença. Começou com “Os Três Porquinhos”, partindo em seguida para Thomas Mann e Joseph Conrad. Depois de familiarizar-se com o inglês nas sessões contínuas do cinema, passou à leitura da revista Time. Hoje fala também um pouco de francês e, “macarronicamente”, o italiano.

Já no Rio de Janeiro, datilografava trabalhos escolares e fazia traduções de “livros de cowboy” – o que evoluiu para alguns títulos estrangeiros da então celebrada editora Civilização Brasileira. Terminou preso pela ditadura, confundido com o editor Ênio da Silveira – que, segundo os militares, tentava se safar sob o pseudônimo do falso tradutor Edney Silvestre.

Cooptado pela escrita, foi redator de publicidade, repórter de O Cruzeiro e O Globo. Mandado a Nova York como correspondente do jornal carioca, trocou o impresso pela televisão em meados dos anos 80. Dividia a redação com o estúdio improvisado onde Paulo Francis gravava seus comentários, não sem antes emitir duas dúzias de palavrões.

Uma vez, sua mãe ligou de Valença para elogiar: “Estava ótima a reportagem de ontem”. Edney estranhou o inesperado interesse de dona Maria pelo assunto da clonagem humana. “Não, Edney”, explicou ela, “estou falando da sua gravata, estava ótima”.

Sem a gravata Edney tem o pescoço grande e rosado, além de olhos ligeiramente para fora, uns cílios inclinados para baixo. Quando vai falar alguma coisa grave, ele franze a sobrancelha sobre o olho direito, ao mesmo tempo em que abre o esquerdo. Repetiu isso toda vez que falou da tragédia no Rio, sua última cobertura.

Na região serrana reviveu algumas de suas tragédias pessoais. Como o incêndio que destruiu o pequeno armazém do seu Joaquim no final dos anos 50. Edney foi retirado das chamas de pijama, o pai saiu de hobby, a mãe de camisola. Foi tudo o que restou do patrimônio da família.

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo, 30/01/2011

Aos 84 anos, o espanhol Francisco Triviño é um documento vivo da arquitetura paulistana. Construtor de maquetes para Rino Levi, Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha, é uma pena que nenhuma de suas peças tenha sobrevivido ao tempo

Quem adentrar desavisadamente a oficina do seu Triviño pode pensar que errou de porta – e ao invés de um escritório que faz maquetes, vai se achar numa borracharia. Culpa deste gosto já meio démodé que o seu Triviño tem por pendurar na parede calendários de mulher pelada. É preciso dizer que não se trata da ginecologia dos dias de hoje. São calendários de 1978, 1984, 1996, no máximo um 2003 – quando não havia mulheres peras nem melancias, o sutiã mais vendido era tamanho 40 e ainda se cultivavam pêlos nas partes baixas. O seu Triviño, que aos 84 anos tem uma Belina 85, é aquele sujeito natural e genuinamente vintage, que não precisa frequentar brechó. O seu Triviño é o próprio brechó.

Francisco Triviño Machado deveria ser tombado como patrimônio cultural. É ele o fazedor de maquetes – ou maquetista – de quase toda a obra do premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha. É também do seu Triviño a maquete feita a partir do desenho de Rino Levi para o concurso de Brasília. Imigrante espanhol, ele trabalhava na primeira firma especializada nesse tipo de miniatura em São Paulo – a já extinta Kevel, na rua Augusta –, quando apareceu por lá um esbaforido Rino Levi. Faltavam três dias para o encerramento das inscrições, e o arquiteto modernista não tinha a maquete do projeto. Seu Triviño e um colega japonês aceitaram o desafio de fazê-la em tempo recorde. Trabalharam dois dias e três noites, tirando apenas algumas pestanas no Parque Trianon. Fizeram duas maquetes: uma do setor de habitação, outra do “superbloco”. Por fim, Rino conferiu-lhes o gorjetão de mil cruzeiros para cada um. E ficou em terceiro lugar.

O trabalho para Rino Levi abriu-lhe as portas da escola paulista de arquitetura moderna. De Rino, ele fez ainda a maquete do antigo Banco Sul Americano do Brasil, prédio hoje ocupado pelo Itaú Unibanco, na Avenida Paulista – uma das sete obras do arquiteto tombadas há um mês pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo, Condephaat. Prestou serviços também para Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha, Burle Marx. O paisagista, aliás, chegou a planejar alguns de seus jardins debruçado sobre as maquetes, ainda na oficina de seu Triviño – que a essa altura já tinha se lançado em carreira solo, abrindo uma portinha nos subterrâneos do número 551 da rua Augusta.

Com esse nome preguiçoso, Escala Maquetes, a firma do seu Triviño atendia aos trabalhos mais criativos da arquitetura paulistana. Labutando no porão de uma casa que não existe mais, o seu Triviño construiu as maquetes de algumas das edificações mais emblemáticas da cidade. Entre elas a Assembleia Legislativa de São Paulo, dos arquitetos Adolpho Rubio Morales, Rubens Carneiro e Ricardo Sievers; o Parque Anhembi, de Miguel Juliano e Jorge Wilheim; o Clube Paineiras do Morumby, de Carlos Varjas Millan; a Cidade Universitária, campus da USP, projeto de inspiração modernista do qual participaram vários arquitetos.

Nascido em Calahorra, na província de Granada, Espanha, seu Triviño é filho de uma família de agricultores que migrou para Madri quando ele ainda era pequeno. Seu pai tornou-se um encarregado de parques e jardins da cidade, e por seu conhecimento descolou para o jovem Triviño um emprego de restaurador de móveis. Como não eram tantos assim os móveis a recuperar, Triviño começou a fazer uns frilas com o cunhado de seu patrão, um habilidoso maquetista. Usavam estrutura de madeira, vidro jateado e cortiça, no lugar do acrílico com o qual se faz praticamente toda a maquete nos dias de hoje. Não havia espaço para novidade: numa Espanha que acabava de sair de duas guerras em sequência – a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) – , tudo o que se construía por lá eram igrejas e hospitais. E o seu Triviño, então com pouco mais de 20 anos e cansado de fazer miniatura de igreja e hospital, começou a sonhar com novos horizontes, praias, mulheres bonitas, povo gente boa, sol, calor e muitos e inconfessáveis etcs., seguidos por sugestivas reticências…

De posse de uma “carta fajuta” em que seu tio lhe oferecia dois anos de emprego – uma exigência legal aos imigrantes –, seu Triviño desembarcou no Rio de Janeiro em 1951. Deixou na Espanha duas namoradas, que segundo seu portunhol selvagem teriam ficado “desilusionadas”. Instalou-se primeiro na avenida Copacabana 99, endereço bacana onde havia muitos espanhóis. Arranjou um emprego mal pago numa marcenaria da Gávea que restaurava móveis. Quando a grana começou a minguar, mudou-se para as costas do Palácio do Catete. Durante esses primeiros meses no Rio, sentia “um negócio no corazón” e começou a ficar grilado. “Câmbio de clima”, diagnosticou o médico, “nada grave”. Ainda assim, Triviño resistia aos encantos da cidade. No máximo, dava um rolê com a dona da “pensón”. A distância de casa tinha transformado o seu Triviño numa “persona muito preocupada com as cosas”.

Solamente as personas muito preocupadas com as cosas eram capazes de trocar o Rio de Janeiro dos anos 50 por São Paulo. Foi isso que o seu Triviño fez sete meses depois. E ainda chamou a irmã, coitada – e a outra irmã, o pai e a mãe. Instalaram-se todos no Ipiranga, onde hoje funciona a Triviño Maquetes. O pai foi trabalhar de jardineiro numa fábrica têxtil na rua do Manifesto. Uma das irmãs, a Lolita, dava aulas de espanhol. E assim ela conheceu Lídia, uma “cantante” brasileira de música flamenca cujo nome artístico era Carmezita Serrano. Lídia fazia parte de uma companhia patrocinada pelos Vinagres Palhinha – mas o que vem ao caso é que Lolita resolveu botar uma pimenta na história, fez lá um cupido, e seu Triviño acabou casado com a Lídia/Carmezita, hoje uma senhora de 78 anos com quem teve quatro filhos, uma neta e um bisneto.

Quando ainda estava no Rio, Triviño pôs um anúncio nos classificados do jornal oferecendo-se como “maquetista espanhol”. Para sua surpresa, o que apareceu não foi um emprego mas um “investidor” disposto a abrir uma empresa e associar-se ao seu Triviño. Mas o seu Triviño não quis de jeito nenhum, porque, tirou isso não sei de onde, “para aprender a hablar una língua não pode ser patrón, tem de ser funcionário”. Já em São Paulo, trabalhando para a Kevel e hablando esse portunhol todo enrolado, deve ter repensado essa questão patronal quando decidiu, acertadamente, abrir seu negócio.

Por sua relação com “o Paulinho” e outros modernistas, aprendeu a gostar das maquetes que não têm aqueles telhadinhos bonitinhos cobrindo as construções. Também por influência deles, gosta mais da miniatura branca, limpa, sem adereços, de forma a tornar relevante apenas os volumes. Apesar disso não escolhe trabalho, faz o que aparece – e aparece um bocado de coisa horrorosa, como os edifícios neoclássicos e os prédios com um milhão de apartamentos. Em compensação, está hoje trabalhando no projeto de reforma do Teatro Cultura Artística, em São Paulo, originalmente desenhado por Rino Levi e agora refeito, depois do incêndio de 2008, pelo arquiteto Paulo Bruna. Outro trabalho atual é a maquete do polêmico Sesc Belenzinho, do arquiteto Ricardo Chahin, que pôs abaixo os antigos galpões da fábrica de tecidos Moinho Santista.

A motivação para estar na ativa aos 84 anos, o seu Triviño garante, vem dos calendários na parede da oficina (um gozador, esse seu Triviño). “É o meu motor de arranque”, brinca. Ao lado das boazudas de outrora, há um pouco de tudo no salão que ele e o filho Marcelo, seu assistente, alugam desde 1971. Tem cartazes anunciando velhos congressos de arquitetura, um certificado do Rotary Club, um toureiro de gesso, um velho emblema Volkswagen, pedaços de madeira, papéis velhos, furadeiras, serras elétricas, máquinas de lixar e polir, um toca-fitas da Sharp. Na estante, a coleção de latas de leite Ninho e paçoca guardam miniaturas de carros e pessoas nas mais diversas proporções. Em frente, um diminuto “jardim botânico” abriga arvorezinhas, coqueirinhos, a grama feita a partir do tingimento da serragem. Sobre uma bancada, jaz a maquete de uma parte do Anhembi, a única sobrevivente de todos os grandes projetos dos quais o seu Triviño participou. O resto, como em geral acontece com qualquer maquete, foi descartado quando a construção ficou pronta. É uma pena, embora o seu Triviño não esteja nem aí pra isso.

Originalmente publicado na revista V, 12/2010


Não é porque o sujeito é urubu que ele não tem uma história. Carniça, por exemplo, viveu entre o céu e o inferno. Com um tendão atrofiado, decolava tipo uma galinha – uma galinha preta

Quando no futuro se prestar homenagem à 29ª Bienal de São Paulo, que termina no próximo dia 12, será obrigatória uma deferência a Carniça, Lodo e Sujeira. Durante os 14 dias em que dormiram, comeram e obraram na instalação de Nuno Ramos, obscureceram as demais obras. Retirados por ordem da Justiça, deixaram uma lacuna no pavilhão – e a sensação de que fomos injustos com suas pessoas, tratadas sempre genericamente por “urubus da Bienal”.

Não é porque o sujeito é urubu que ele não tem uma história particular. Carniça, por exemplo, viveu entre o céu e o inferno. Com um tendão atrofiado, decolava tipo uma galinha – uma galinha preta. Dessa forma, ao invés de ser atingido por um Boeing, foi atropelado por uma moto em Aracaju. Levado à casa do criador de aves de rapina José Percílio Mendonça, 35, chegou completamente escangalhado.

Percílio, que é fundador do Parque dos Falcões, em Itabaiana (SE), tinha lá um outro urubu – a Fedor. Chegara em situação penosa: achando-se perseguida por uma pipa que enroscara no seu pé, voou até acabar o combustível. Apesar da afinidade de seus dramas pessoais, e a despeito do que sugerem seus nomes, Carniça não se dava com Fedor.

Para reverter o anticlímax, Percílio foi para a mata observar como nascem os bebês Cathartes burrovianos, o urubu de cabeça amarela. Determinado a “pôr esses dois pra namorar”, preparou “um motelzinho” a partir de sua experiência de voyeur. Fez um ninho de pedra e um “poleiro da dança”. Foi nesse aí que a Fedor se encontrava quando o Carniça atacou pela retaguarda.

Carniça passou a viver, então, numa trepantina danada. Aos 15 anos, já produziu oito filhos – e não deixou de fazer sexo nem durante a primeira versão de “Bandeira Branca”, apresentada por Nuno Ramos no CCBB de Brasília em 2008. Sempre com a Fedor, porque o urubu, como o gavião, é fiel.

Dessa filharada vieram Lodo e Sujeira, além de Romualdo e cinco anônimos. Sujeira, 10, é o mais proeminente. Já fez ponta em documentário japonês, e acaba de gravar um longa com Matheus Nachtergaele – “Na Quadrada das Águas Perdidas”, direção de Wagner Miranda e Marcos Carvalho. “Ele é ator mais principal do que o Matheus”, aumenta Percílio.

O filme tem também a participação de Lucinha, uma coruja de orelhas que vive no Parque dos Falcões. Ela precisava latir (latiu) e pousar sobre o umbral de uma casa. O script de Sujeira era mais complexo: tinha de seguir Matheus, trocar olhares, “comer” um jegue sedado, uma cabra, um cachorro. Para Marcos Carvalho, trata-se de “uma estrela do cinema nacional”.

Sujeira já fez trabalho mais sujo. Em uma ocasião, foi levado a um curtume para espantar outros urubus. Deu certo até que sobrou um, com quem fez amizade. Quando está solto, costuma retornar na companhia de estranhos. Durante exercícios para manter o peso, engana a si mesmo buscando uma corrente em que possa planar sem esforço. “Desce aqui, Sujeira”, grita Percílio, “DESCE JÁ!”.

Lodo é mais novo que Sujeira. Aos 6 anos, foi preparado para ser solto na natureza, e por isso nem deveria ter nome próprio. Com esse tipo evitam-se maiores contatos, de forma que o trabalho na Bienal foi o primeiro emprego de Lodo. Percílio olhou para um, olhou para outro, “a Fedor enrolada com o filho que tinha arranjado em Brasília”. E foi no impulso “que se deu o escolhimento”.

No caso dos urubus, falar em mau agouro é chover no molhado. Então digamos que Lodo estreou com o pé esquerdo, alijado que foi da exposição. Não se abalou. Conserva “aquele ar de quem parece que está falando da gente”, diz Nuno Ramos. “Uma sabedoria de quem olha as coisas de cima.”

Quando Nuno soube que a Folha iria até Sergipe rever os “urubus da Bienal”, escreveu à reportagem: “Dê um abraço cordial nos meus bichinhos. Diga que sinto falta deles. E que amor impossível é que é amor”.

Psicopata, Virgulino e Bronquite

Aos pés da Serra de Itabaiana, a 45 km de Aracaju (SE), o Parque dos Falcões abriga 330 aves de rapina, uma casa simples e viveiros rústicos. Sujeira, Lodo, Carniça e Fedor moram em 16 metros quadrados (na Bienal, desfrutavam de 2.500). Até agosto do ano passado, dividiam o espaço com o urubu albino Michael Jackson. Michael foi roubado e assassinado. Três pessoas foram presas.

A população do parque é formada por animais apreendidos pelo Ibama ou resgatados em más condições de saúde. Cerca de 70% das aves são aleijadas ou mutiladas. Ninguém tem vida mansa e quase todas participam de palestras para educação ambiental. Fora os treinamentos físicos – segundo o fundador do parque, José Percílio Mendonça, “para não infartar”.

Há uma “equipe de segurança” formada por uma coruja buraqueira, um carcará e um gavião mirim. O gavião chama-se Psicopata e pode atingi-lo na carcaça craniana ainda que esteja na companhia de Percílio. Mulambo e Bronquite, galinhas-d’angola, são responsáveis por chocar ovos de falcões, gaviões e corujas, o que já garantiu a reprodução de 26 espécies.

O criadouro conservacionista Parque dos Falcões existe há 10 anos. Percílio, 35, lida com os animais há 27. Tem a ajuda do parceiro Alexandre Correia e do veterinário Willian dos Anjos, mas, embora tenha feito apenas o ensino fundamental, desenvolveu toda uma técnica para lidar com as aves.

Basicamente, trata todo o mundo igual cachorro: faz carinho, coça a barriga, chama pelo nome. Usa a linguagem do animal (pia). Descobriu que, passando alecrim no corpo, podia disfarçar o próprio cheiro em incursões na mata para observar a vida selvagem. Se o ovo trinca, ele põe um esparadrapo. Se a pena quebra, superbonder.

“É por isso que digo: conheço meus urubus. O que estava incomodando eles na Bienal eram os protestantes retardados”, diz, em referência aos que protestaram contra a presença dos animais.

Como as aves de rapina têm territórios próprios e muitas ficam soltas no parque, é possível encontrar Percílio explicando às corujas: “Olha, daqui pra cá, é seu, de lá pra cá é da Lucinha”. Outras coisas estranhas acontecem. É o caso da relação entre Virgulino, um pavão, e Bronquite, a galinha. Dessa cruza nasceu o Mutante. O Percílio jura.

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo, 02/12/2010

As memórias póstumas de um pit bull que só não virou homicida porque foi salvo pelo esporte

O meu nome era Bandido Raça Pura. É isso mesmo, por quê? Tá achando ruim? Qualé que é? Tá achando agressivo? Gente preconceituosa… Nome não é a própria pessoa que escolhe, viu? Puseram esse nome em mim, conforme registro no Pit Bull Club do Rio de Janeiro: “Bandido Raça Pura, matrícula AAA-0169-RJ, nascido em 16 de junho de 1996”. Particularmente eu gostava muito do Raça Pura, porque a minha linhagem só tinha mesmo cruza de campeões, nenhuma mistura de raças. E não venha você outra vez, que racismo em cachorro é virtude. Gente ignorante… E o que que tem o sujeito se chamar Bandido? Bandido não é gente? Uma pena que as filhas do meu primeiro dono, com quem tive graves problemas, quiseram me chamar de outra coisa. Eu aceitei porque sou cachorro, e cachorro tem um nome no documento e outro na vida real. Acabei virando o Jafar, aquele do Aladin. É o vilão da história, por quê? Algum problema, mermão?

A família que me adquiriu primeiro era formada por pessoas estranhíssimas. Tinham uma casa na praia de Guaecá, em São Sebastião, no litoral paulista. Eu morava e trabalhava no endereço, fazendo a segurança 24 horas por dia, de segunta a segunda. No fim de semana eles apareciam. À noite, colocavam uma música alta, reuniam-se na sala e passavam a sacolejar seus esqueletos de forma bizarra. “Ma que porra é essa?”, pensava comigo. A balbúrdia ia num crescendo, provocando meus instintos e invocando a experiência cruel de meus antepassados, forjados nas rinhas de cães da Inglaterra. A essa altura eu achava por bem fugir para a praia, me jogar no mar e ir entrando para o fundo. Minhas patas rompiam a água e eu achava gostoso a sua consistência. Isso me relaxava, ao mesmo tempo em que tonificava os meus músculos de quase atleta. Era capaz de ficar ali por duas horas seguidas. Infelizmente não posso dizer o que se passava pela minha cabeça – numa lista das cem raças mais inteligentes do mundo, bem… eu não consto dessa lista.

Em pouco tempo a música alta e o sacolejar dos esqueletos começaram a consumir nervosamente as minhas entranhas. Passei a rosnar grotesca e indistintamente, tanto para convidados como gente de casa, adultos, idosos, crianças e mulheres. Qualé desse povo estranho? Os bêbados, então, tornaram-se alvos prediletos, incluindo meu próprio dono. Chegavam sempre no final da tarde, vindos da praia. Eu não podia mais admitir o ingresso dessa cambada na minha própria residência e local de trabalho. Diante do portão, eu os repelia com veemência. Se tivessem insistido, infelizmente teria sido obrigado a ir às veias de fato, que são as do pescoço. Mas tal providência não se fez necessária, porque fui imediatamente vendido para Rogério Conte por US$ 2.500. Na época, um filhote do american pit bull terrier valia US$ 1 mil. Eu tinha 1 ano e meio. Só que, ao contrário do pit bull corpulento, construído para as exposições da raça, eu era um cão esguio e ao mesmo tempo muito forte. O Rogério dizia que os outros eram Schwarzenegger – e eu, o Bruce Lee.

Rogério sabia o que estava falando. Tinha lutado judô, karatê, boxe, jiu jitsu. Gostava especialmente do último porque, segundo ele, o jiu jitsu é uma arte suave em que você trabalha bastante a cognitividade entre o cérebro esquerdo e o direito. Na minha visão de cachorro, o Rogério era praticamente um pit bull, e isso me transmitia uma enorme confiança. Morávamos num apartamento em São Paulo. Mas todos os fins de semana descíamos para surfar no Guarujá. O Rogério remava em sua prancha até o outside. Eu ia junto. Ele saía, eu ficava. A natação era para mim um comprimido de Prozac: me acalmava completamente, eliminando até mesmo o ímpeto que tinha de me atracar com outros cachorros e por fim assassiná-los, o que vem a ser um dos nossos esportes preferidos. O Rogério percebeu o poder que o exercício físico tinha sobre a minha psiquê de serial killer. E passou a desenvolver comigo novas atividades, que acabariam por me transformar em um superatleta. Nada disso teria sido possível, no entanto, se ele não tivesse me apresentado aquele que viria a ser o meu melhor amigo, talvez até por uma compatibilidade de QIs – um pneu.

A primeira das novas modalidades a que me dediquei foi o skate. O Rogério subia no carrinho, me pegava pela guia e alguém saía correndo na nossa frente segurando o meu pneu. Eu não pensava em mais nada: precisava recuperá-lo a qualquer custo. Assim era capaz de arrastar o Rogério a uma boa velocidade. Fazíamos a mesma coisa usando uma bicicleta. Depois um carro, e finalmente uma caminhonete. Com o tempo, condicionado ao exercício, não precisava mais do pneu – corria atrás dele do mesmo jeito. Se o pendurassem a 3 metros de altura, eu podia alcançá-lo em um pulo. Se o deixassem na copa da árvore, eu escalava a árvore. Se jogassem o meu pneu no fundo da piscina, eu mergulhava. Podia suportar até 2 metros de profundidade e 40 segundos sem respirar. Algumas pessoas dizem que pit bulls gostam mais de seus pneus do que de seus donos. Era esse o meu caso.

O Rogério era um cara estudado. Tinha feito administração de empresas e trabalhava como operador da Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo, que ele achava parecido com um campeonato de Vale Tudo. Hoje ele tem 37 anos. Mas quando saiu da Bolsa tinha 28 e estava cheio da grana. O Rogério pôs o dinheiro todo numa empresa de transporte de cargas. E perdeu tudo. Ficou zerado. Diante da adversidade da vida, ele teve a idéia de partir para outra, ficando na mesma – e decidiu então profissionalizar as minhas atividades esportivas. Estabeleceu regras, criou novas modalidades, batizou as demais: Cabo de Guerra, Jump the Wall (pule o muro), Skate Individual ou em Dupla, Kick the Tree (espécie de salto impulsionado por escalada em árvore), Kick the Wall (idem, porém utilizando uma parede), Jump (salto em altura) e Delivery (corrida de revezamento cujo bastão, abocanhado por um pit bull, é erguido por duas pessoas, que correm 50 metros com o cachorro pendurado pela boca). A esse conjunto de provas o Rogério deu o nome de Game Dog. Tem feito eventos e aglutinado seguidores. Uma imbatível seqüência de Jump the Wall causou grande impacto aos milhões de espectadores que nos assistiram no Se Vira nos 30.

O Game Dog é baseado na moral cristã, na família, no trabalho e no amor condicional. Foi o Rogério que disse isso. Da minha parte, eu só queria o meu pneu. Mas ele criou toda uma filosofia, citando inclusive Pitágoras – na verdade Pit Tágoras – e estabelecendo uma relação entre ele e os pit bulls, que eu não me arrisco a reproduzir, tamanha a sua complexidade. Segundo o Rogério, o Game Dog “busca o aperfeiçoamento constante dos recursos cinófilos disponíveis, visando ao justo e ao correto, em detrimento de atitudes negativas, com o objetivo de fazer presente o esporte, a atividade saudável e, acima de tudo, o respeito à vida humana e principalmente ao atleta canino”. Socorro! Eu quero o meu pneu!

Nos raros momentos em que estive afastado do pneu, era porque estava dando uma bimbada. Primeiro na Ruska, depois na Miss Game, também numa cadela mexicana, numa outra de Bauru, em duas Red Boy Jocko, e finalmente numa da linhagem dos Garners. Quando não rolava uma bimbada, e nem o pneu, então eu dormia ou me alimentava. Carne mal passada, retalho de filé mignon sem gordura, cenoura, beterraba, batata doce, gengibre, mel, hortelã. O Rogério gosta de cozinhar, mas apenas para os seus cachorros. Depois do treino, quando voltávamos para casa, ele me passava no dorso um pano umedecido na água quente.

Em dezembro do ano passado, depois de um longo passeio, eu me acomodei no canto da sala para uma pestana merecida. Acordei morto. Tinha 11 anos de idade e é provável que o meu coração tenha finalmente ido para o saco. O Rogério verificou o ocorrido e se emocionou. Depois levou o meu cadáver para o Pet Memorial, um crematório de cachorro. Nunca mais voltou lá, porque cachorro não tem esse negócio de pegar as cinzas.

Eu vim aqui dar esse testemunho porque tem gente querendo acabar com a nossa raça. Gente preconceituosa… Primeiro proibiram o pessoal de sair na rua sem focinheira. Eu saía sem. Eu sou um exemplo morto de que o pit bull tem jeito. Quando a Guarda Municipal abordava o Rogério, ele jogava sempre a mesma conversa: “Pit bull? Não, não, está sem focinheira porque é dogo argentino com bulldog”. Funcionava. Mas agora estão querendo castrar os irmãozinhos… Que que isso, rapá? Que violência é essa? Pra que isso? Já tá todo o mundo de focinheira, mermão. E agora vem esse povo querer chutar cachorro morto.

Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo, 16/09/2007


Quem é o americano com rabo que o Metrô teve a desfaçatez de tratar como um cachorro

A primeira vez que Boris deu com a cara na catraca foi na estação Marechal Deodoro do Metrô. Possuindo rabo e sendo quadrúpede, foi tratado como um cachorro: “Aqui não é permitido animais”, rosnou o funcionário da companhia, barrando sua entrada. Boris não entendia nenhuma palavra de português – é cidadão americano e está no Brasil a trabalho. Limitou-se a mostrar a língua, sem que houvesse nisso qualquer atitude de escárnio. “O fato de ele ser um animal é apenas uma coincidência”, intercedeu a advogada Thays Martinez, 32 anos, fiel companheira de Boris. “Ele não está aqui como bicho de estimação. Eu sou cega e este cão é o instrumento que me permite deslocar pela cidade.” Diante do inesperado argumento de que o cão não era um cachorro, o funcionário decidiu acionar a chefia. Evocando cláusulas e determinações, a chefia transferiu o problema à instância superior, instância esta que deveria reportar-se a seus diretores, cujos despachos incluiriam a análise dos requerimentos, tudo registrado em cartório e com firma reconhecida. Depois de 7 horas diante do portão de entrada, Boris bocejava com insistência. Foi quando um vira-lata atravessou a rua, enfiou-se por debaixo da catraca e desapareceu pelos corredores da estação. “Que País é este?”, teria se perguntado Boris (em inglês), antes de acomodar-se para uma pestana.

Boris é americano do Michigan. Tem 49 anos – quer dizer, 7, se considerarmos a sua idade de cachorro e não de ser humano. É um cão labrador cuja árvore genealógica certamente esconde algum golden retriever, o que justificaria o fato de ser Boris um cachorro dado a um certo cinismo, nada que comprometa no entanto o seu caráter. Boris nunca teve filhos. É virgem, inclusive. Castraram Boris. Essas são questões bastante pessoais, mas devemos nos ater a elas para compreender o tamanho da dedicação de Boris à sua carreira profissional. Boris é um cão-guia, especialista na condução de deficientes visuais. Não ficaria bem, portanto, vê-lo escarafunchando o cio alheio, ainda mais levando a reboque uma pessoa cega. A abdicação de Boris foi premiada essa semana, quando a Justiça finalmente liberou sua pessoa jurídica para utilizar o Metrô sem nenhuma restrição. “Uma boa discussão pode abrir portas antes insuspeitadas”, escreveu Quiroga na sua coluna de horóscopo, sexta-feira passada, a respeito dos librianos. Boris é de Libra.

Vem de antes do berço a seriedade com que Boris encara seus desafios profissionais. Treinado pela ONG americana Leader Dogs for the Blind, ele passou primeiro por uma seleção genética. A escola, que prepara cerca de 300 cães-guias por ano, tem tentado aprimorar características físicas e de temperamento adequadas à função – “o cachorro não pode ser submisso demais”, explica Thays, “e nem dominante em excesso”. A observação desses aspectos leva a instituição a escolher sempre os filhotes mestiços, frutos dos primeiros cruzamentos entre mais de 20 raças do mundo, do pastor alemão ao poodle gigante. No começo, Boris chamava-se Chips (e uma colega sua, Pepsi). Como os outros cachorros da ONG, foi entregue a uma família voluntária quando tinha 2 meses. Nada a ver, ainda, com os deficientes visuais – durante um ano inteiro, essa família tratou de “socializar” Boris, fazendo-o freqüentar restaurantes, viajar de avião junto com os demais passageiros, passear no shopping. Ensinou-lhe “boas maneiras”, o que no caso dos cães significa não subir no sofá, não defecar no tapete, não atacar o prato de comida dos seres humanos. Aliás, a comida dos humanos, a exemplo do sexo com animais, está vetada desde sempre.

Na adolescência, os cães-guias são devolvidos à escola. Hora de aprender os “comandos de obediência”. O princípio básico é o seguinte: o cão deve andar em linha reta até que haja um obstáculo ou receba a ordem para mudar de direção. Assim, começa a ter noção do que é direita e esquerda. Aprende a parar diante dos degraus e a sinalizar a travessia de uma rua. Desenvolve a capacidade de calcular os obstáculos aéreos – aqueles pelos quais o cachorro passa batido, mas os cegos acabam batendo a cabeça.

Depois de 5 meses de treinamento, tem-se um cão pronto para a labuta – e assim Boris foi parar em um banco de dados, isso quando ainda era Chips. Seu nome passou a fazer parte de um grande arquivo no qual estão listadas cerca de 60 características de cada animal preparado pela Leader Dogs. Essas características seriam depois confrontadas com aspectos físicos e psicológicos dos deficientes visuais, reunidos em um outro banco de dados, similar ao dos cachorros. Foi nessa “agência de casamentos” que Thays encontrou Boris.

Boris não foi o primeiro. Antes dele teve o Astro, um fila brasileiro – Thays era pequena e montava a cavalo nele. Depois veio Tocha, o vira-lata. Debby, uma beagle. Vick, Mini e Bill, os poodles. Paulistana, Thays ficou cega quando tinha 4 anos, por causa de uma caxumba. Só viu o Astro, mas não se lembra da cara dele. Thays não tem memória visual – é como se tivesse nascido cega. Com 7 anos, uma professora da escola contou para ela sobre os cães-guias que tinha visto na Europa. Thays ficou com aquilo na cabeça. “Depois, quando eu já era adolescente, comecei a sentir necessidade de ter um pouco mais de independência”, conta. “Então fui procurar um daqueles cachorros para mim.” De cara, comprou um labrador. Tentou treiná-lo por conta própria. Não imaginava o grau de complexidade que envolvia a tarefa – só viria a descobri-lo na internet, quando uma amiga acessou o site da ONG mericana. Thays foi buscar Chips no Michigan quando tinha 26 anos – “de graça, porque a ética de manuseio do cão-guia é a mesma do transplante de órgãos”. Chips virou Boris. E Boris operou uma mudança substancial na maneira que Thays passou a enxergar o mundo. “Tudo o que construí no últimos anos”, ela diz, “foi conseqüência direta ou indireta da qualidade de vida que o Boris me trouxe”.

Boris é hoje um sujeito bilíngüe. Há seis anos no Brasil, aprimorou e muito a sua capacidade de parecer gente. “Encontre uma escada para mim”, ordena Thays. E lá vai o Boris. O comando funciona também para “elevadores, mesas, cadeiras” e o que mais se desejar. Se Thays está de tênis, ele anda “rápido e relaxado”; se coloca salto, estará atento aos mínimos buracos. Para que memorize um endereço (um cão-guia é capaz de guardar na cabeça cerca de 200), basta que ela o leve duas vezes até o local. Na terceira vez, Boris vai sair de casa, tomar o caminho do Metrô ou do ônibus, sair da estação na direção correta, dobrar esquinas, atravessar ruas, achar a entrada do prédio e levá-la até o balcão de atendimento. Por fim, será agraciado com “uns biscrocs”, que é o seu “suborninho” – Boris já abrasileirou-se e esse não é o único indício. Boris gosta de água-de-coco e Chico Buarque.

Errar é humano, mas apesar disso Boris não erra. É apenas ligeiramente cínico, como já se disse. Nada que se compare a um golden retriever, capaz de fazer uma curva com tanta antecedência e sutileza que não será notada pelo deficiente visual – permitindo assim que o ardiloso cão vá urinar numa árvore completamente fora do esquadro. Boris é como um labrador – vai direto ao ponto, sendo assim facilmente descoberto. Um dia, enquanto caminhavam pela calçada, Thais notou uma estranha curva, que ia até o meio da rua e depois retornava à calçada. Voltou para certificar-se da necessidade daquele desvio e descobriu que Boris desviara de uma árvore caída. “Parabéns, Boris!”, disse ela, sacando do bolso o biscroc. Mais adiante, o movimento se repetiu. Mais um biscroc. Logo depois, outro desvio, novo biscroc. Na quarta vez, ela perguntou para alguém que passava: “Por que ele está fazendo essas curvas?” “Da primeira vez havia uma árvore no chão”, responderam. “Mas das outras vezes, não tinha nada não…” Tinha biscroc.

É muito raro que Boris se comporte como um moleque enquanto estiver vestindo o arreio com o qual Thays o segura. É de uma responsabilidade comovente. Quando  trabalhava no Banco Real, entre 2003 e 2005, ela só o liberava depois que ele a levasse até a sua mesa. “Agora sim, Boris, vai cumprimentar os seus amigos.” Boris passava de mesa em mesa, no andar inteiro, abanando o rabo para cada um de seus colegas. Penetrava em reuniões, largava-se no chão ao lado dos mais chegados. Se Thays precisasse dele, dava um ou dois telefonemas até localizá-lo. “Boris, a Thays está te chamando” – bastava isso para que reassumisse seu posto imediatamente.

Thays é de uma família de classe média de São Paulo – estudou a vida inteira em escola pública, o que não a impediu de passar no vestibular para Direito da USP. Trabalhou no Ministério Público, ela e Boris. Hoje é presidente do Instituto Iris (de Responsabilidade e Inclusão Social). Advoga principalmente para o terceiro setor. Há três anos, confiando na sua parceria com Boris, saiu da casa dos pais para morar sozinha – quer dizer, com ele. Thays tem namorado. Boris não liga. Quando está em casa, passa a maior parte do tempo deitado em frente à porta da rua. À noite, acomoda-se no edredom que fica no chão do quarto. Há alguns anos, Thays descobriu que Boris gosta de travesseiro. Boris põe a cabeça no travesseiro. Estará aposentado quando completar 10 ou 11 anos. Terá de ser substituído, podendo-se dedicar a ser um cachorro comum em tempo integral. Recentemente, Thays descobriu que Boris também gosta de uma coberta sobre o corpo – de modo que um dia desses é capaz que ele acenda o abajur e puxe um livro do criado-mudo.

Publicado originalme em O Estado de S.Paulo, 09/04/2006

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