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John Galliano, Mel Gibson e Charlie Sheen são diferentes de Oscar Wilde e Kiki de Montparnasse – seus escândalos só nos fazem recordar nossas piores facetas


Entre todos os signos bélicos de todos os tempos e lugares, da Califórnia de Schwarzenegger à Líbia de Kadaffi, da China de Mao Tsé-tung à Cuba de Fidel, nenhum chega aos pés do Tiro no Pé – que por sua distinção deve ser grafado com maiúsculas. Tiro no Pé é um clássico capaz de deixar no chinelo, por exemplo, a Bala na Agulha. Ou o famoso Três Oitão, recentemente aposentado pela Polícia de São Paulo com obituários de página inteira. Nem todo o mundo tem Bala na Agulha ou manuseou o Três Oitão – mas não há ser humano que já não tenha dado um Tiro no Pé.

John Galliano foi o último, se desconsiderarmos a massa pedestre que a cada segundo comete o genocídio de sua parte mais baixa – e sem falar também no deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), cuja base de sustentação já virou queijo suíço, e não se sabe o que é preciso mais para ele cair. Aquela noite, no Marais, Galliano era o Clint Eastwood na trilogia dos dólares de Sérgio Leone – o cavaleiro solitário que bebe num canto do saloon, impassível, o rosto sem expressão, o gesto sem desperdício, o copo na sua frente. A diferença é que Galliano era o próprio cavalo, e o cavaleiro é que deve ter ficado amarrado na porta do bar.

Pois o equestre estilista, sentindo-se de repente açoitado por um grupo de mulheres italianas que ocupava a mesa ao lado, deixou escorrer para a câmera a espessa baba de comedor de capim. “Eu amo Hitler”, sapateou ele, já mirando o próprio scarpin. E disparou: “Com Hitler você estaria morta, sua mãe e seus antepassados seriam todos gaseados.” Bem, com Hitler, Galliano, que é uma flor, certamente não seria tratado como tal. Mas incluiu-se fora dessa, da mesma forma que fez a Dior, ao dar baixa na sua carteira depois de quase 15 anos de serviços prestados à grife.

Façamos porém a nossa mea-culpa (não sem antes desarmar o gatilho do excesso de franqueza, o caminho que mais rapidamente leva a vaca para o brejo): não há sobre a Terra um único pé que tenha saído ileso durante a longa caminhada da vida. Não é um versículo de Eclesiastes. Não é o Paulo Coelho no Twitter. É a dura e bípede realidade: basta ter dois pés (ou até um), e mais dia menos dia eles serão alvejados por quem menos se espera.

Todos nós já produzimos provas contra nós mesmos, desdenhando o direito de não fazê-lo. Todos nós passamos rasteiras nas próprias pernas. Boicotamos os próprios projetos, atentamos contra nossos melhores casamentos, puxamos o tapete sob os nossos pés. Poderíamos ser processados por danos morais, não fôssemos vítimas e réus ao mesmo tempo. Quantas vezes não fomos, num corpo só, a Preta Gil e o Jair Bolsonaro. Quer dizer, o Bolsonaro também já é demais – digamos, mais apropriadamente, que em nosso corpinho muitas vezes habita o Lula e o FHC, a Luana Piovani e o Dado Dolabella, o Palocci e o Guido Mantega.

Ainda assim, com a sempre honrosa exceção do nobre Bolsonaro, não consta que seja a coisa mais comum do mundo, para efeitos do Tiro no Pé, a exaltação nazista da raça ou da etnia. Mas, curiosamente, o antissemitismo confesso tem provocado a recente desgraça de algumas das celebridades de mais alto coturno. Além de John Galliano, os atores Charlie Sheen e Mel Gibson teriam feito melhor negócio se tivessem guardado segredo de suas opiniões sobre os judeus. Como não nasceram em Minas Gerais, não são obrigados a saber que “quem fala demais dá bom dia a cavalo”. O equino do ditado nada tem a ver com o Galliano.

A Charlie Sheen, coitado, um atenuante: trata-se de um loki total. Protagonista da série cômica de maior sucesso nos Estados Unidos, Two and a Half Men, Sheen era o ator mais bem pago da TV americana – ganhava cerca de US$ 1,25 milhão de dólares por episódio. Nos últimos anos, gastou parte de seus proventos com drogas e bebidas. Virou o terror da mulherada: duas de suas ex o acusaram de violência doméstica. A atriz Denise Richards, com quem tem duas filhas, separou-se de Sheen em 2005, assustada com sua obsessão pelo assassinato da mulher de O. J. Simpson – de quem, ela afirma, colecionava até as fotos da autópsia. Em entrevistas, disse que o ator era viciado em pornografia. Sheen vive hoje com a atriz pornô Bree Olson – que juntamente com a modelo e designer Natalie Kenly formam um casal de três! Vai vendo…

Em outubro do ano passado, o figurante de Apocalypse Now (1979) seguia descarregando artilharia contra o próprio pé: depois de destruir uma suíte do Plaza Hotel de Nova York, admitiu uso de cocaína e álcool. Foi hospitalizado e liberado. Em 27 de janeiro, voltou a ser internado, o que fez a rede CBS suspender Two and a Half Men. Dia 24 do mês seguinte, deu entrevista no rádio atacando Chuck Lorre, o criador da série. Quatro dias depois, falando a um canal de TV, cobrou aumento de 50% no salário. Foi demitido em 7 de março. Desde então só se refere a Lorre através de seu nome em hebraico, o que é visto como uma maneira preconceituosa de frisar sua origem judaica.

Mel Gibson é menos pancadão: “apenas” entorta o caneco, bate na mulher e bota a culpa nos judeus – perto de Sheen, é um santo. Em julho de 2006, foi preso por dirigir bêbado e em alta velocidade. Culpa de quem? Dos judeus, claro, contra os quais bradou seus impropérios. “Agi como uma pessoa completamente fora de controle quando fui detido”, tentou limpar a barra, “e disse coisas infames, que não são verdadeiras”.

Em março deste ano, o protagonista de Máquina Mortífera (1987) foi condenado a três anos de liberdade condicional por agredir a ex-namorada Oksana Grigorieva, estilista russa com quem tem uma filha. Uma das peças do processo eram gravações com insultos raciais supostamente lançados por Gibson ao telefone. O ator terá de prestar 16 horas de serviços comunitários e assistir a palestras sobre violência doméstica durante 52 semanas.

No passado, gente famosa como o escritor Oscar Wilde ou a musa da Paris dos anos 20 Kiki de Montparnasse também foi vitimada pelo Tiro no Pé. Homossexual, Wilde passou dois anos na cadeia condenado a trabalhos forçados por “cometer atos imorais com diversos rapazes”. Kiki, companheira do fotógrafo e pintor Man Ray, deu para todo o mundo, bebeu e cheirou o que não devia, sofrendo todo tipo de preconceito. Mas as atitudes de ambos ajudaram a emancipar gays e mulheres. John Galliano, Charlie Sheen e Mel Gibson são a antítese disso – enquanto mandam o pipoco no próprio pé, apenas reafirmam nossa cabeça de dinossauro e nosso espírito de porco. Pé na bunda deles!

Publicado originalmente na revista Elle, 05/2011


HUMMMMM…

Pés, costas e partes insuspeitadas

Mulheres se preocupam com o bumbum e as coxas, que de fato são importantes. Mas partes menos voluptuosas e por isso insuspeitadas são deixadas à parte, com graves consequências para a libido masculina. Um pezinho delicado, por exemplo, é meio caminho andado. Verdade que isso depende menos da pedicure do que de questões congênitas, ou seja, ou você tem ou não tem – e não há plástica que dê jeito numa lancha mal alinhavada. Mãos também caem como luva neste quesito. Além das costas. Uma “costas” deliciosa é o convite mais eficaz para uma noite de conchinha. Um amigo já teve ímpetos, nessa hora, de fazer elogios ao que considero um órgão sexual: “O melhor de você, amor, são suas costas”. Calou-se, receoso de que depois ela fosse falar dele – pelas costas.

Saltos e batatas

Se homens gostam de pés, eles amam os saltos, capazes de revelar, além dos pezinhos, as batatas da perna – com reflexo, aí já é coisa da nossa cabeça, em coxas e bumbuns ainda mais durinhos (e costas, hummmm, eretas). Acontece, porém, que o homem é péssimo comprador de salto. Erra desde a altura até a loja. O último que comprei será levado ao sapateiro, para ver se é possível arrancar um toco e diminuí-lo. Constrangida por não usar o nosso presente, a mulher abandona todo e qualquer saltinho, substituindo-os por aquelas sandálias de romano em livro do Asterix. Melhor não arriscar.

Ela depiladinha

É difícil encontrar no mundo uma coisa cujos nomes sejam tão inapropriados como no caso da… bem, buceta. Senão vejamos: buceta é um xingamento; xoxota é malicioso demais; xana ou xaninha não dá; perereca é infantil; vagina é ginecológico. De forma que não há como falar sobre o assunto sem desconforto. Mas vamos lá: ao longo da história, xoxotas, que a gente achava ser impossível melhorar, mudaram seus cortes de cabelo e a cada dia foram se tornando mais atraentes. Se pensarmos em Cláudia Ohana, com seu penteado metaleiro, vamos ver que a xana virou outra pessoa. Por ora, pererecas skinheads estão imbatíveis.

Uma masturbadinha básica pra gente assistir

Não são apenas os fetiches variados capazes de enlouquecer essas pobres criaturas testosterônicas. Uma masturbadinha básica, pra gente assistir, pode ser mais eficiente. E não se corre o risco de errar a mão, o que acontece eventualmente com chicotes, sexo no meio da rua e fios terra para bunda, quer dizer, banda larga. A masturbadinha básica pra gente assistir enquadra-se na categoria das coisas simples sonegadas ao homem, visto que tocar umazinha é mais comum em carreira solo do que em banda. Por isso esse mistério que nos tira do sério. Por isso a popularidade do sexo virtual – esse buraco de fechadura com webcam.

Uma gata cheirando a cigarro e whisky

Homem também quer casar e ter filhos. Também quer se apaixonar. E quer acordar sem ressaca no domingo de manhã. Mas, poxa, sabe como é, homem, na falta de melhor termo, gosta de uma putariazinha (que, explica-se, nada tem a ver com prostituição, mas com o ímpeto etílico-hedonista que nos persegue desde a Grécia Antiga). Na curva descendente da balada, o melhor dos mundos é uma gata cheirando a cigarro e whisky, a revogação da Lei Seca e um hotel de quarta categoria. Já no dia seguinte… Bom, aqui se faz, aqui se paga.

Uma conversa franca com a sua coelhinha

Pessoas falam durante a transa. Americanas, por exemplo, dizem “oh, god, yeah, yeah”. Mas tem gente que vai mais fundo no papo, além de fazer o mesmo em outras partes – e conduzem verdadeiras e reveladoras entrevistas. A brincadeira se dá nos moldes das “respostas cretinas para perguntas idiotas” – no caso, “respostas sacanas para perguntas desavergonhadas”. O segredo é não poupar a parceira de suas curiosidades mais tesudas. E você, parceira, confessar o inconfessável. Ao fim da trepantina, ninguém fala mais nisso. Funciona, além de economizar na psicanálise.

Uma noite no swing, uma manhã de tantra

Experimentar variadas formas de sacanagem é mais velho do que dar de frente. Então melhor agora, que o swing está na moda e as massagens tântricas também. São modalidades opostas, mas que levam ao mesmo objetivo: uma gozada fenomenal, com interessantes reflexões sobre o sexo nos dias atuais. Levar você, gatinha, no swing, não significa oferecê-la ao primeiro cafajeste. O swing da moda tem quase nada de troca de casais. É como o tantra: uma deliciosa exploração dos limites físicos e morais. Uau!

O sabor da inominável

Se os homens pudessem eleger a melhor fragrância do universo, o prêmio iria para o Dermacyd, aquele sabonete líquido que faz a higiene íntima da mulherada. Que maravilha aquilo! É o próprio cheiro da xoxota! Aliás, depois do Dermacyd, não se sabe mais que cheiro original tem a dita cuja. Nem faz falta. Porque basta uma cafungada no Dermacyd que toda mulher deixa no box do banheiro para você ser transportado para um mundo de sonhos, fantasias e, claro, xoxotas. Se eu fosse uma mulher em busca de aventura, daria um jeito de borrifar um Dermacyd no pescocinho.

Ejaculação feminina, se existir

Se ela existe, a gente quer ver. Se há dúvida, investiguemos por conta própria. Se é um mito, melhor irmos cheios de dedos. A recente fissura dos manos por este cataclismo deve ser celebrada pelas minas: antes do apreço pelo jato em si, o que a rapaziada gosta mesmo é de ver a mulherada gozando – aquela coisa que lateja, os pezinhos que se contorcem. Ah, os pezinhos… Hummmm…

AAAAARGH…

A gata que vira leoa

Urros que apavoram os vizinhos, arranhões subcutâneos. Eject.

Cavalgada no rodeio

Não é apenas o banco do Silvio Santos que quebra.

Pés horríveis

Acontece. Diga que este é o seu fetiche, e só transe de botas.

Mulheres que choram

E, em geral, vomitam. Um encontro, e caput.

Publicado originalmente na revista Gloss, 04/2011

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