O atleticano velho de guerra, quatrocentão, pode vaiar o Caetano cantando funk, o João Gilberto reclamando do microfone – mas não vaia o Galo de jeito nenhum
Houve um tempo em que se dizia que vaiar o próprio time era “coisa de cruzeirense”. Dizia-se o mesmo sobre outras práticas, como ir à manicure, usar sutiã, brincar de Barbie, passar batom. Apenas no time do Cruzeiro parecia natural haver um guarda-metas chamado Wanderléa. Quando os atleticanos recorreram ao Reino Animal para dar nome à torcida celeste (bicharada), os cruzeirenses deram o troco na mesma moeda (cachorrada).
Com exceção do Bolsonaro, os seres humanos evoluem – e hoje, graças a qualquer um menos a Deus e às religiões, é cada dia mais raro o atleticano (ou o corintiano) referir-se ao cruzeirense (ou são-paulino) como se ele fosse a mulher do bicho. Essa brincadeira perdeu a graça. Se não me falha a memória, o argentino Sorín foi último a ser homenageado: “Olha a cabeleira do Sorín! Será que ele é? Será que ele é? Será que ele é bossa nova? Será que ele é Maomé?”. Dava vontade de sair do estádio – pagar outro ingresso e voltar.
Se o atleticano teve a sapiência de abandonar seu cântico preconceituoso (a camisa rosa é nossa bandeira branca), deveria agora recuperar aquilo que esqueceu nos sofríveis anos 90: vaiar o time é coisa de cruzeirense. O atleticano de verdade não vaia o Atlético – seria como vaiar o filho pereba na escolinha de futebol. O atleticano velho de guerra, quatrocentão, pode vaiar o Caetano cantando funk, o João Gilberto reclamando do microfone – mas não vaia o Galo. (Agora inventou de vaiar o Hino Nacional antes do jogo, naquela hora em que “a imagem do cruzeiro resplandesce”.)
Aos 6 anos, fins dos anos 70, eu ia para o Mineirão de Opala, com tios e primos. Ficávamos na “torcida do América”, que era do Galo se não estivesse jogando o Coelho – a porção de arquibancada atrás do gol da Lagoa, onde hoje está a Galoucura. Ali se acomodavam os mais velhos, e ninguém vaiava o Atlético. Aos 15 eu tomava o 2004 na av. Nossa Senhora do Carmo e ia me sentar na arquibancada, bem no meio do campo – com a Força Viva, a FAO, as bandeiras verticais da Galo Elite. A Charanga fungando no cangote.
Ninguém vaiava o Galo, e eu fui ficando naquele meio de campo, enquanto surgia a Galoucura atrás do gol. Meados dos anos 80, deu-se uma mudança: a população da parte central da arquibancada, de frente para as cabines de rádio, envelhecera – ali bate um sol danado. Os mais novos e fanáticos migraram para a curva do anel. A Galoucura, que não para de cantar, foi ficando maior que a Força Viva.
O problema é que na meiúca do campo restou uma população de corneteiros agourentos, uns caras a reclamar de tudo, a falar as piores coisas sobre nossos piores jogadores, a culpar todos menos o juiz – e a vaiar. São nervosos e ansiosos, como se tivessem sido paridos pelo Bernardinho. Estão no jogo para ganhar. São uns conteiners sem alça. Ao lado deles você pode não ter uma noite agradável de quarta-feira. Por isso a cada jogo eu ando mais meio metro em direção à Galoucura. Naquele pedaço de arquibancada precisa instalar uma UPP – mas, pelo menos ali, vaiar o Galo ainda é coisa de cruzeirense.
Publicado originalmente no Estado de Minas, 16/07/2011

